Peripécias do jovem Plínio Marcos

A Bola da Vez é um espetáculo localizado da mitologia popular, quando o futebol era no chão de terra das várzeas. Hoje a maioria não sabe sequer o que significa várzea. Vamos relembrar: é o terreno plano às margens dos rios e ribeirões. A Avenida 23 de Maio e seu pesadelo automobilístico cotidiano já foi o Vale do Itororó, com um riacho margeado de plantas aquáticas e tábuas de bater roupa das lavadeiras dos bairros Bexiga e Liberdade, e dos campinhos de futebol. Partidas domingueiras e memoráveis foram travadas ali. Entre os jogadores estavam Agostinho dos Santos (1932-1973), o cantor de Balada Triste, e antes dele, o lendário garoto Vassourinha (Mário Ramos), sambista maior em seus apenas 19 anos de vida.

O Estado de S.Paulo

04 Outubro 2012 | 03h10

Paisagem semelhante acolheu em Santos o nosso Plínio Marcos de Barros, que passou a infância em peladas nos bairros populares e quase foi jogador antes de se consagrar como dramaturgo. Manteria pela vida afora sua paixão esportiva e a fidelidade às cores vermelha e amarela do pequeno e aguerrido Jabaquara Atlético Clube, o Jabuca do bairro do Macuco.

Plínio (1935-1999), que seria também contista e cronista esportivo, daria a esse seu passado futebolístico a mesma áurea das "chuteiras imortais" de Nelson Rodrigues. É todo um sentimento do mundo anterior ao futebol-negócio e seus ídolos breves e depois caricaturas de si mesmos, na decadência transformada em noticiário sensacionalista.

Esse tempo e essa pequena humanidade dos bairros estão no bonito espetáculo A Bola da Vez, texto e direção de Graça Berman. Foi necessário uma mulher para relembrar a várzea e Plínio Marcos, enquanto os cartolas e estrelas momentâneas dos campos se engalfinham por salários e os bons negócios que a próxima Copa promete.

Baseado em artigos de Plínio na grande imprensa e nos seus livros Inútil Canto e Inútil Pranto Pelos Anjos Caídos e Histórias das Quebradas do Mundaréu, o enredo corre em duas linhas que se cruzam: o futebol e a infância. A vida familiar e as peripécias do brigador Plínio, dos dias de palhaço de circo a um dos maiores escritores do teatro brasileiro.

O drama dos jogadores anônimos surge em tom realista que lembra os filmes Os Boleiros, de Ugo Giorgetti e, mais atrás, Chapetuba Futebol Club, joia da dramaturgia de Oduvaldo Vianna Filho (estranhamente, há relativamente pouca arte sobre futebol na chamada "Pátria de Chuteiras"; o livro Maracanã, Adeus - Onze Histórias de Futebol, de Edilberto Coutinho só é encontrável em sebos).

Um elenco pequeno da Cia. Letras em Cena (menos de 11 de um time), mas com garra e humor (Décio Pinto, Ana Arcuri, Fabrício Garelli, Gira de Oliveira, Jota Barros, Ricardo Pettine e Tânia Luares), faz o palco do Teatro Maria Della Costa parecer circo de periferia, várzea e os bares da boemia intelectual da Santos de outrora, onde brilhava a inteligência de Patrícia Galvão, a Pagu (1910-1962) escritora, militante comunista, incentivadora de teatro e a primeira pessoa a ver em Plínio um criador poderoso. É um entrecho divertido, provocador e pungente (o torcedor que morre de emoção durante o jogo com o arquirrival).

Flashes de vidas modestas, sonhos irrealizados, de um circo que já não existe, e a trajetória de Plínio, suas ideias e suas glórias. Um cara que não se entregou como artista nem como homem. A cenografia e figurinos são mambembes - e isso é um elogio. A precariedade cenográfica é intencional e inevitável em uma produção levantada na raça, que faz lembrar uma ficção da baixada santista. Ecos dos romances Os Saltimbancos, de Afonso Schmidt, e Navios Iluminados, de Ranulpho Prata, que falam de teatrinhos improvisados e do porto. Ainda poderão render bom teatro. A Bola da Vez atravessa um tempo em que Pelé tinha só 15 anos e estava começando e Plínio Marcos, outro moleque, treinava no juvenil da Portuguesa Santista. Várzeas da memória.

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