Perigos reais para cineastas

Na telona ou telinha, histórias ressurgem, mas são estranhas à realidade atual

TERRENCE RAFFERTY , THE NEW YORK TIMES , O Estado de S.Paulo

06 de abril de 2012 | 03h06

Não há dúvida de que, nos últimos dois anos, os contos de fadas têm se tornado cada vez mais frequentes tanto na telona quanto na telinha. Espelho, Espelho Meu (nos EUA, Mirror, Mirror), de Tarsem Singh, é uma nova versão cheia de vida de Branca de Neve, e Snow White and the Huntsman está prevista para este ano. E Hansel and Gretel: Witch Hunters vem no início de 2013. E duas das séries mais empolgantes da atual temporada da TV, Grimm e Once Upon a Time são baseadas nas premissas tortuosas de contos de fada. Nem todos esses filmes e séries incorporam o 'felizes para sempre', mas a indústria do entretenimento, confiante nos poderes da própria magia, acredita que ficaremos encantados.

Talvez fiquemos, mas o tom característico dos contos de fadas é terrivelmente difícil de reproduzir na tela. Só no ano passado, A Garota da Capa Vermelha, de Catherine Hardwicke, e A Fera, de Daniel Barnz (um A Bela e a Fera atualizado), mostraram que os cineastas que se aventuram nessas florestas escuras correm muitos perigos.

A Garota da Capa Vermelha traz uma saga familiar de modo mais ou menos tradicional, ambientando a ação na aldeia medieval usual e vestindo os atores com as costumeiras roupas de camponeses. O lobo de olhos e orelhas grandes que ameaça Chapeuzinho e sua avozinha se transformou num lobisomem, e um alarmante clérigo caçador de licantropos (interpretado por Gary Oldman) foi introduzido, mas os elementos básicos da história permanecem intactos, e a sra. Hardwicke, famosa por Crepúsculo, mantém o clima adequadamente sombrio. Mas o filme é terrível. Não há nenhuma convicção real nele: os atores jovens parecem falar esperanto; os mais velhos parecem confusos, como que lutando para despertar de um longo feitiço.

A Fera adota um rumo diferente, transportando uma história antiga para nosso admirável mundo novo, e é igualmente pouco convincente. A história clássica, cuja versão literária é a história do século 19 por Jeanne-Marie Leprince de Beaumont, já foi adaptada anteriormente por Jean Cocteau em 1946 e por animadores da Disney em 1991. Barnz ambienta a ação em um cursinho de Manhattan, no qual um rapaz rico e arrogante é transformado por uma bruxa num sujeito feio. Ele precisa aprender a ser uma pessoa boa o bastante para a doce heroína amá-lo a despeito da sua aparência.

O problema com a concepção de Barnz é que, apesar do título do filme, o protagonista não é uma fera. Diferentemente dos animais peludos dos filmes anteriores, ele é apenas um ser humano não muito vistoso: sua "bestialidade" parece mais a obra de um cirurgião plástico ruim. No romance poético de Cocteau, o herói, apesar de toda sua civilidade, é também um animal extremamente mortal - um predador que, quando se apaixona por Bela, precisa controlar cada grama de sua força de vontade para não matá-la.

O longa de Cocteau é um paradigma impossível, é claro. É o melhor filme baseado em conto de fada já feito. Pele de Asno (1970), de Jacques Demy, é um concorrente distante e trata de uma história perturbadora com leveza - uma princesa que tenta escapar das investidas de seu pai, o rei, que deseja se casar com ela. E A Companhia dos Lobos (1984), de Neil Jordan, é mais assustador e erótico que os filmes de contos de fadas geralmente se permitem ser e, de jeito nenhum, é para crianças.

O mundo do qual saíram os contos de fada em grande parte desapareceu e, embora nos agrade pensar nessas narrativas simples como eternas, elas não o são. Graças a videogames e computação gráfica, fantasias de todos os tipos ressurgiram nos últimos anos.

Mas as realidades sociais de que dependem os contos de fada originais são quase incompreensivelmente estranhas às sensibilidades do século 21 - elas cheiram a feudalismo. E as lições que deveriam ensinar a nossos jovens não têm muita força hoje.

Espelho, Espelho Meu se esforça para fazer o público saber que ele (o filme) está consciente da própria tolice. Embora tudo se passe num reino de conto de fadas vagamente medieval - mais fácil de conjurar agora, com efeitos digitais -, o tom é alegre e anacrônico. A rainha má parece ter saído de um dos episódios mais maduros de Desperate Housewives e cada fala filme é dita como uma tirada de sitcom. Branca de Neve é muito mais uma princesa despachada que a heroína passiva de antanho, e este Príncipe Encantado é muito menos imperioso. Ele não consegue impedir Branca de salvá-lo, quando ele acredita que devia estar salvando a moça.

Apesar de sua rigorosa falta de seriedade, Espelho, Espelho Meu pode agradar a seu público-alvo: crianças e pré-adolescentes. Isso não nos diz muito, porém, sobre como deveríamos pensar nos contos de fada em nosso presente desencantado.

As séries de TV Grimm e Once Upon a Time são bem mais profundas do que qualquer filme recente de contos de fadas ousou ser. Grimm acompanha um detetive que persegue e vence a fera da semana. Os monstros passam por humanos. Somente um "Grimm", um caçador de monstros hereditário como o guarda, pode vê-los como eles realmente são. Esse é um poder oportuno para se ter em 2012.

Once Upon a Time tem um conceito ainda mais elaborado.

Parece que a rainha má da história de Branca de Neve pôs uma maldição em cada outro personagem de conto de fada: eles foram transportados para nosso tempo sem saber quem eram em sua existência anterior de livro de histórias. O que evoca um sentimento de não pertencer a lugar algum que parece generalizado no mundo atual. Não é uma série profunda, mas é hábil ao atualizar histórias com as quais nós crescemos. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.