Periferia remixada

O artista Gary Stewart fala sobre a rente linha entre instalações e projetos sociais

ROBERTO NASCIMENTO , O Estado de S.Paulo

23 de março de 2012 | 03h08

Em 27 de novembro de 2010, noite em que o Rio aguardava a ação policial no Complexo do Alemão, um grupo de 15 jovens do já "pacificado" Morro da Providência hasteou uma série de telas brancas no alto da favela para projetar um trabalho de remixagem visual, ao vivo, que abordava temas como diferença e ocupação.

Munidos de softwares de projeção, o grupo deu sequência a um improviso coletivo com imagens do morro, todas distorcidas, sobrepostas, recoloridas e manipuladas in loco para representar ideais e aspirações estéticas. Tratava-se da primeira encarnação brasileira do projeto Encontros, feito em parceria com a organização inglesa de artes, People's Palace Projects. E dependendo de qual ângulo se enxerga, o projeto, realizado novamente no ano passado, é uma instalação colaborativa de arte do gueto, ou um trabalho de cunho social. "Eu venho da escola do Fluxus", explica o artista visual e músico Gary Stewart, realizador do projeto no Brasil.

"Sempre procuro trabalhar além dos confins dos cubos brancos das galerias de arte. Me interessa a intervenção em comunidades como uma forma de arte, e assim como o Fluxus, de criar eventos que são tidos como um trabalho artístico", explica, referindo-se ao movimento artístico dos anos 60 e 70 que influencia artistas multimídia contemporâneos.

Gary está no Brasil há duas semanas para coordenar o braço paulistano dos encontros, que terá sua apresentação em novembro, na Assembleia Legislativa de São Paulo. Em São Paulo, o Encontros é feito com um grupo de adolescentes do Capão Redondo, que se reuniram ao longo destes 14 dias na escola da cia. de dança Sansacroma, localizada no bairro da periferia. Para Gary, que vai expor na galeria Tate Modern, em junho, uma exposição sobre como o histórico local pensa, é uma extensão de um trabalho que tem feito em comunidades subdesenvolvidas, sendo um dos mais recentes uma instalação audiovisual com material que retrata a vida em uma plantação de cana na Martinica.

"Penso nesses projetos coletivos como uma forma de captar informação de um arquivo coletivo e remixá-la", explica. "Temos um arquivo como uma coisa estática, um museu ou uma biblioteca. Mas um arquivo não é apenas um depósito físico, ele pode ser algo que vive, como na plantação, ou aqui. Amo museus e arquivos e objetos antigos, mas eu tento pensar em modos como eles reverberam como o agora. E a possibilidade de criar com a informação de um arquivo, seja o que está em volta de uma pessoa, ou o de um museu, é algo que não deveria ser um privilégio", completa.

Instalação, evento ou trabalho social, o Encontros é concebido por Gary para dar poder de expressão a um grupo. O idealizador não tem controle sobre o resultado. "A ideia é encontrar uma forma em que adolescentes consigam ter uma participação mais dinâmica em assuntos dos quais geralmente são deixados de fora. Ao mesmo tempo, eles praticam arte contemporânea e estão engajados em um processo autoral, algo que lhes dá poder."

Para o Encontros paulistano, o grupo decidiu que o tema será "declaração", sendo que o projeto de improvisação coletiva vai ser apresentado na Assembleia. A partir de uma pesquisa de imagens, e uma reflexão sobre o que diriam em um palanque, o grupo monta a performance. "A única coisa que tenho que controlar é a sensação de poder que eles adquirem quando descobrem que conseguem fazer videoclipes de seus pop stars preferidos com as imagens selecionadas", conta.

O projeto começou com o grupo pensando em mitos e superstições culturais para que criassem a partir disso. Quando o Estado pergunta se há semelhanças estéticas nos projetos feitos por crianças inglesas e brasileiras, Gary responde que sim, há temas recorrentes entre eles. "Mas as diferenças estão mesmo em projetos realizados com crianças de classes mais altas, que têm sempre seleções diferentes", disse, ao folhear por fotos menos agressivas do trabalho das tais crianças.

Quando não expõe seu trabalho, Gary faz visuais para nomes da música eletrônica inglesa como Kode 9, além de tocar com o próprio grupo de dub instrumental.

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