Periferia Atômica

Um remix sem parcimônia de todos os guetos aponta para o futuro musical

ROBERTO NASCIMENTO, O Estado de S.Paulo

14 de janeiro de 2012 | 03h11

Cumbia, kuduro, footwork, reggaeton, grime, funk carioca, kwaito. A lista de ritmos que interligam a periferia global é extensa, e nos últimos anos tem sido recitada toda vez que se descreve a pluralidade sonora que influencia muitos produtores de música underground contemporânea. O fenômeno pode ser apelidado de World Music 2.0, uma versão para o século 21 da globalização musical que começou a pipocar no jazz e no rock em meados dos anos 70, quando Miles Davis, Herbie Hancock, Paul Simon, David Byrne e outros começaram a agregar estilos musicais do Terceiro Mundo às suas composições.

Mas os tempos mudaram. Em 2011, o que já foi restrito à garimpagem de sebos e viagens a lugares remotos agora está disponível por meio de alguns cliques. Portanto, é cada vez menos surpreendente que uma dupla de produtores americanos como o Nguzunguzu tenha uma sonoridade baseada na cumbia colombiana e suas variações sul-americanas. Que o influente DJ Rupture (foto), do Brooklyn, agregue todas essas tendências em mixtapes, programas de rádio e produções. Que uma onda de produtores alemães dedique-se ao kuduro, de Angola. Ou que um dos discos mais elogiados do ano passado tenha sido Eye Contact, do Gang Gang Dance (que esteve no festival Planeta Terra), em que a banda parte do princípio, anunciado por um dos músicos na primeira faixa do disco, de que "pode-se ouvir tudo. É hora de tudo".

A frase tornou-se um mantra para jornalistas e músicos em 2011. No caso do Gang Gang, seu resultado é a concepção de uma psicodélica mistura de rock experimental e ritmos da periferia global. Mas o que ela representa para os músicos e jornalistas que a citam constantemente é que uma mistura pouco policiada de música das mais diversas épocas e dos pontos geográficos mais remotos agora faz sentido.

De Bogotá a Luanda, a Belém do Pará, o som dos guetos que nutre essa prole de músicos e DJs tem semelhanças, como se fossem sotaques de uma mesma língua. A produção é crua, projetada para abalar as aparelhagens de som com poucos detalhes. O uso do característico software de afinação Auto Tune é extenso, e as músicas incorporam elementos que vão do trance ao hip-hop sobre a pegada rítmica local.

Parte do que instiga quem vasculha a internet atrás dessas vertentes é a forma com que elas transpiram elementos familiares da música ocidental, do R&B ao house, formando uma re-reciclagem dos sons que estamos acostumados a ouvir.

Como aponta Simon Reynolds, em um ensaio recente sobre o assunto (que o crítico, incansável analista do impacto do passado na música contemporânea, chama de xenomania, uma fixação musical dos países mais desenvolvidos pelo som das periferias estrangeiras), o "impulso de buscar música exótica que já existe (muitas vezes há décadas, mas nunca esteve no radar de DJs do mundo ocidental) pode substituir o impulso de buscar o futuro desconhecido, que um dia foi a força motriz da vanguarda musical do Ocidente". Empenhado nessa busca há mais de uma década está o cosmopolita DJ Rupture, que atua em diversos fronts, de DJ e produtor a criador de softwares musicais. Rupture preconizou o canibalismo global pós-internet muito antes de ele virar praxe, com a eletrizante mixtape Gold Teeth Thief, de 2001 (disponível para download gratuito no site negrophonic.com). Mescla de ruído com hip-hop e música marroquina, a mixtape antecipou o fetiche pela periferia que começaria quatro anos depois, quando Diplo popularizou o funk carioca nos discos de M.I.A, servindo de exemplo para febres que incorporaram o kwaito sul-africano e a cumbia latina aos beats americanos. Rupture tem um excelente programa quinzenal na rádio WFMU (vários episódios estão arquivados), que é ouvido por muitos dos interessados nesse safari musical online. Em sincronia com a agregação de estilos de Rupture está o disco Music From Saharan Cellphones, que reúne canções obscuras de pop do Oeste africano, retiradas de telefones celulares. O álbum exemplifica e busca por uma linguagem familiar, porém diferente, que tanto seduz os produtores atuais.

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