Pergunte ao professor Sakao

Nunca diga a esse homem que samba e japonês não se dão bem. Ou melhor, diga. Ele vai contar uma bela história

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

22 de maio de 2010 | 00h00

O japonês pequeno por trás do piano nem sabia bem o que era samba quando uma jovem se levantou da plateia do Iate Clube de Yokohama em sua direção. "O senhor toca alguma coisa de música brasileira?" As noites daquele Japão triste de 1948, pós-derrota na 2.ª Guerra Mundial, andavam cheias de soldados americanos em busca de jazz, e o trio de Sakao aproveitava para ganhar uns trocados. Mas batuque brasileiro, nem pensar. Hidenori Sakao, o pianista, lembrou meio torto de Aquarela do Brasil e, mesmo sem ginga, ganhou a confiança da moça.

Ela voltou para pedir mais, e ele aproveitou. "Você não é americana, é?" "Não, sou brasileira." "E o Brasil tem tantas moças bonitas como você?" "Obrigada, mas no meu país eu sou considerada feia." "Feia?" Feia. Em que lugar do mundo poderiam esnobar aquela formosura? Hidenori Sakao ficou com o dilema. Se a moça era feia, imagine as bonitas. Que era esse Brasil? Em janeiro de 1956, Sakao, 25 anos, sem piano, sem família e com os US$ 75 que o governo japonês colocava no bolso de seus imigrantes antes de despachá-los pelo mundo, desembarcou no Porto de Santos. Veio tirar as dúvidas.

As mulheres eram de fato estonteantes, mas a música que se fazia por aqui tinha muito mais curvas. O sambão dos anos 50 ganhava suavidade para dali a pouco virar bossa nova, e bastava entrar no bar de um hotel qualquer do centro de São Paulo para se ter mais surpresas. Em um deles, o Trio Tambajá tocava Esse Seu Olhar, de Tom Jobim. O japonês ficou louco. "Foi o que me pegou." A partir dali, enfrentaria qualquer um que dissesse que samba não combinava com olhinhos puxados. Sua vida era aquilo e ele já se sentia um brasileiro.

Abril de 2010, prédio da Fundação Japão, Avenida Paulista. Hidenori Sakao é um senhor de 78 anos que sorri fácil mesmo falando um português sem molejo. Casado com uma paranaense de Curitiba, descendente de alemães, pai de uma filha, foi assessor cultural do Consulado Geral do Japão por 25 anos até se aposentar. Hoje é considerado o homem que ergueu a ponte aérea Brasil-Japão para a música brasileira passar. Sempre de terno cinza, bem cortado para seus 1,60m de altura, Sakao se transformou em uma espécie de guru para orientais que querem saber de sambas e bossas. Seus "discípulos" já passam de 300. Um deles é a pianista Mika Mori, radicada nos EUA e vista como nome de respeito no samba jazz moderno. Aos conterrâneos que o procuram na Fundação Japão, ministra palestras esporádicas, ilustradas por um DVD e muitas histórias já lançadas em livros com bastidores que ele testemunhou. Sakao levou três anos para tocar samba ao piano, mas o tempo que o fez um especialista permite falar de um jeito que muitos brasileiros não ousariam.

A aula do professor Sakao começa pelo mais difícil. "Pode um japonês cantar como um brasileiro?" Pode, diz ele, mas é preciso ter vernaculidade. A palavra no sotaque vem de um jeito incompreensível. Ele pega um bloco e anota ao repórter "vernaculidade". "Tem de sentir as coisas da terra primeiro, deixar o país entrar em seu corpo. Ver filmes brasileiros, ler livros em português." A chave da música brasileira, diz, não está no ritmo, mas no idioma. E aqui ele começa a rasgar o senso comum. O gingado que todo historiador atribui aos africanos foi trazido, segundo Sakao, pela língua dos portugueses. A música de um povo tem suas maiores raízes no idioma. "Um africano não dança samba como um brasileiro. É a prova de que esse gingado não é deles."

E então, quando um aluno lhe pergunta por onde começar, Sakao tem duas listas a apresentar. Uma traz o que ele deve ouvir, outra o que ele deve evitar. "Para sentir o espírito brasileiro, é bom que não se ouça Gilberto Gil e Caetano Veloso. Caetano pode ficar bravo, dizer que japonês não sabe o que fala, mas é que isso pode confundir o japonês. Gil e Caetano entraram mais com guitarras na época da Tropicália." E o que ouvir então? Maxixe, choro, marcha carnavalesca. Ao falar de origens, Sakao deixa clara sua percepção de bossa nova. Não lhe venham com João Gilberto, banquinhos e violões. Quem criou a bossa nova, a batida da bossa, foram os bateristas. Gente como Milton Banana, Edison Machado, Milito. "Eles foram a locomotiva para tudo acontecer. Não estavam contentes com o sambão e passaram a tocar com mais suavidade."

Sakao cria polêmica, mas um fato a não ser desprezado é que esse homem baixinho esteve lá. Seu primeiro emprego aqui, ainda com os US$ 75 no bolso, foi na Rádio Difusora, no prédio onde funciona hoje a MTV. Por 60 minutos, ele apresentava em japonês o jornalístico Hora de Wakamoto. Wakamoto era o patrocinador do programa, um remédio para estômago. Logo seguiu para outra rádio, aí sim como um músico "mais ou menos realizado". A emissora Santo Amaro, somente para a colônia japonesa que inchava na cidade da noite para o dia, recebia aventureiros orientais ansiosos para virarem cantores de rádio. "E fui lá tocar música japonesa no Brasil."

Com Jobim. Foi ruim, mas foi bom. Sakao, afinal, era agora músico na terra de Johnny Alf, Tom Jobim, Carlos Lyra, Elisete Cardoso. Em uma noite carioca no bar Veloso, onde Garota de Ipanema fora criada, sentou-se ao lado de um Jobim em altíssimo teor alcoólico disposto a tirar proveito. "Pô Jobim, dizem que você criou Garota de Ipanema por causa do bumbum da Helô Pinheiro." E Jobim: "Claro rapaz, eu sou carioca."

No fim dos anos 70, levou duas vezes Elisete para o Japão, ao lado do baterista Wilson das Neves e do guitarrista Hélio Delmiro. Tempos depois, encontrou-se com a cantora no Brasil e ouviu uma queixa. "Puxa Sakao, vivo falando para esses músicos e esses jornalistas daqui que os japoneses estão arrasando na música brasileira. Fui lá e vi, mas ninguém acredita." Sakao só não quer que a injustiça se perpetue. Dias depois de ter recebido o repórter, manda um CD-R gravado por ele chamado Música Brasileira Made in Japan. Machito Watarumi e o conjunto de Jun Kagami tocam Chega de Saudade. Mika Mori interpreta Fim de Semana em Eldorado. Gary e o conjunto de Mitsuru Inoue mostram Não Deixe o Samba Morrer e Folhas Secas. Como uma súplica, o senhor Sakao pede para ouvi-los com carinho. A vida desse homem foi para que essa mágica acontecesse.

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