Perguntas difíceis

Não imaginei que esse dia chegaria tão rápido. Ele tem apenas 6 anos...

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S.Paulo

05 de setembro de 2020 | 03h00

“Pai, o que é sexo?” Não imaginei que esse dia chegaria tão rápido. Ele tem apenas 6 anos... 

Vamos lá, encarar mais uma: é quando duas pessoas namoram. “Tipo Bela Adormecida?” Mais ou menos. “Então já vi sexo. Em Hotel Transilvânia, Madagáscar, Moana...” Listou filmes que viu no cinema e streamings, em que há namoricos da grife Pixar, Disney, vampirinha com turista na Transilvânia, zebra com girafa, velejador besuntado com a filha do chefe de Motonui, na Polinésia.

Mais ou menos. Sexo é algo mais do que namoro. “É o quê?” É quando duas pessoas que se gostam dividem intimidades, se encostam. “Pelados?” Nem sempre. “Você faz sexo?” Eventualmente. “Mamãe faz sexo.” Também eventualmente. “Dói?” Pode doer, mas a ideia é que seja gostoso, prazeroso. “Quando eu vou começar a fazer sexo?” Quando você ficar mais velho, bem mais velho. “Quando eu ficar adulto?” Ou antes. Na adolescência. Vamos fazer pipoca?

Eu não estava preparado nem lerei manuais que ensinam a lidar com temas cabeludos. Deixei de lê-los há tempos, afinal, OK, crianças francesas não fazem manha, mas são existencialistas, perdidas, “confus”, reclamam de tudo, e a Noruega tem as melhores escolas, mas a taxa de suicídio é quase o dobro da do Brasil (12,2 versus 6,5 por cem mil habitante). 

Crianças são tão diferentes entre si... Quando leio o título de uma dita especialista “As crianças tá-tá-tá...”, nem abro o link. Como assim, “as crianças”? Valeria “Os adultos pá-pá-pá...”? “Os idosos...”? “Os barrigudos...”?

Muito se tem escrito sobre as crianças na pandemia. É o maior papo-furado pretender diagnosticar o que rola com elas nela. Cada uma reage de um jeito, vive uma realidade social diversa, espaço físico e dinâmica familiar próprios, ampla, com dilemas, paradoxos, descasos, acordos, desacordos, ruídos, brutalidade, desprezo.

Não existe “as crianças”, existem crianças que vivem cada qual sua própria alegria e dor. Para muitas delas, a pandemia é uma rara chance de conviver intimamente com pais, irmãos, casa, pia, louça, vasos de planta, brinquedos e jogos, animais de estimação, fantasias, banho sem pressa, passeio ao supermercado, padoca, farmácia, filminho na TV. 

Problemas a que a colunista se refere não são maior encrenca. Grave mesmo será o que acontecerá com a geração de comunidades de baixa renda, em que muitos vivem precariamente num mesmo ambiente, sem conexão de internet, com pais sem emprego. 

Aqui o iPad foi liberado, pois, nele, estão aulas online e atividades. Até na aula de arte deixaram o lápis colorido de lado e foram para os aplicativos de design. A luta contra youtuber e games ficou para depois. No que vai dar tudo isso? Por vezes, escuto entre uma live e um curso “vou te matar!”. Não vai matar. Terapeutas do futuro, ou até lá, algoritmos, lidarão. 

Pouco convivi com meus pais, de uma geração que no fundo desconfio que teve filho para seguir um papel social imposto, não um projeto pessoal, e que a maioria das mães preferia a vida de Simone de Beauvoir, não a de Grace Kelly. 

Mães cujos maridos jogavam pôquer, e elas limpavam cinzeiros. Para tudo isso existia a religião: simplificar as perguntas difíceis, os dilemas da vida, que estariam nas mãos de um ser Todo-poderoso, designar papéis, estabelecer culpa. 

E cada Igreja interpretou seu livro sagrado à sua maneira, à maneira que lhe convém: se quer subjugar mulheres, meta uma burca em cima ou niqab, ou xador, ou hijab, ou shayla, ou peruca, ou a proíba de cortar cabelo, ou inventa tabu da virgindade antes do casamento.

Meu filho, eu poderia dizer, num discurso damariano (da ministra pastora Damares Alves), na segunda pessoa: Temeis ao Senhor, tu, e os santos, pois não têm falta alguma aqueles que o temem, quando cresceres, entrarás em desespero, mas antes de subires na goiabeira, verás Jesus, vista azul, procure uma moça de rosa, a mulher nasceu para o homem, e encontrarás tua cara-metade, um grande amor nascerá, ficarão noivos, se casarão, e chegará a hora, deixais vir a mim as criancinhas e não tenteis impedi-las, deitarás sobre ela a amada e procriarás, que é um mandamento divino. 

Sexo? Está escrito, direi: logo após criar os animais e o homem, Deus manda que todos cresçam e se multipliquem. Num som solene, darei conta do recado: “E Deus os abençoou e Deus lhes disse: frutificai, e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre a terra. E disse para Adão: esta é agora osso dos meus ossos e carne da minha carne; esta será chamada varoa, porquanto do varão foi tomada. Portanto, deixará o varão o seu pai e a sua mãe e apegar-se-á à sua mulher, e serão ambos uma carne”. Será que cola?

Bem, vovô e vovó irem para o céu depois de morrerem colou. Papai Noel ainda cola. Dente de leite que cai e vira moedas de ouro, se colocados debaixo do travesseiro, idem. Coelhinho da Páscoa também. Se ele insistir, vou damarizar.

 

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