Performance em mil casas

Núcleo do Dirceu, de Teresina, traz a São Paulo a experiência de praticar arte com habitantes nas residências

HELENA KATZ , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

09 de agosto de 2012 | 07h53

De hoje a domingo, o piso térreo do Itaú Cultural, na Avenida Paulista, se transforma na periferia de Teresina, capital do Piauí. É lá que o Núcleo do Dirceu, um agrupamento que reúne entre 17 e 20 artistas, estreia 1000 Casas, que depois segue para o Teatro Cacilda Becker, no Rio, e, de lá, para a sua sede, no Galpão situado no Dirceu Arcoverde, um dos bairros mais pobres e populosos de Teresina, com 250 mil habitantes. Trata-se de uma instalação que pode ser visitada durante o dia e, às 20 horas, nela realizam uma performance.

Marcelo Evelyn, um dos seus idealizadores, conta, em entrevista por telefone ao Estado, do que se trata: "Nosso interesse é entender melhor como criar plateia e mercado para a dança contemporânea. Assim, fomos investigar o lugar do espectador em um espaço que não fosse a poltrona do teatro. Fomos encontrá-lo no seu espaço privado, na sua casa. Planejamos visitar mil casas e, com essa ação, está sendo possível identificar um tipo de subjetividade que se cria quando estamos lá. Percebemos que as pessoas também acabam 'performando', ou seja, quando os artistas estão nas casas, a separação espectador/artista fica borrada. Queremos pensar em formas de aproximar esse tipo de subjetividade que vai surgindo com o que acontece no espaço do teatro, na relação com o público que se pratica lá".

Foi em janeiro de 2011 que os artistas do Núcleo do Dirceu iniciaram as primeiras reuniões e, em junho, começaram a entrar nas casas da sua vizinhança. Já visitaram 400 casas e, nos próximos meses, devem concluir mais 300. Cada um dos artistas cuida de um tipo de casa: as que têm azulejo na porta, as que têm animais de estimação, nas em que moram pessoas com mais de 70 anos, as ocupadas pelos artistas do bairro, as que ficam nas fronteiras geográficas, etc. E cada um deles leva para o Galpão o material nascido desses encontros, para compartilhar com os outros membros do Núcleo.

"Nós gravamos, fotografamos, fazemos vídeo, áudio, animação, fotonovela, são várias as formas de lidar com o que vamos encontrando. Não queremos produzir uma documentação ou um registro no sentido convencional dessas ações, pois entendemos que o que acontece nas casas é uma situação ficcionalizada, tal como a do palco, e por isso estamos preferindo chamar de 'documentalidade' ao material que está sendo reunido e será transformado em livro no fim do ano, com a colaboração do designer gráfico Vitor César, do Ceará. Por enquanto, esse material está disponível no nosso site (www.nucleododirceu.com.br)".

Eles completam sete anos em janeiro. Os três iniciais foram vinculados ao Teatro João Paulo II. Marcelo Evelyn havia voltado ao Brasil, depois de 20 anos atuando na Europa, decidido a contribuir com a cidade onde nascera. Assumiu a direção desse teatro e lá iniciou uma gestão transformadora que, com a troca de governo, como habitualmente acontece em no Brasil, foi interrompida. Sem desistir até conseguir se instalar no Galpão que hoje ocupa, o Núcleo do Dirceu agora lá realiza o Projeto 1000 Casas.

"Recebemos vários nãos. Alguns dizem que não podem nos deixar entrar porque são evangélicos, outros dizem para voltarmos mais tarde porque 'minha filha, que é quem entende dessas coisas, não está em casa', e outros dizem não porque não podem pagar - e aí explicamos que não há nada para pagar, porque nosso trabalho já foi pago por eles com os impostos que recolheram, e aproveitamos para contar como funciona o financiamento da cultura via leis de incentivo no Brasil. A situação de entrar na casa da pessoa, no seu ambiente familiar, doméstico, mexe profundamente nos limites entre o privado e o público/o espectador e o artista."

O Núcleo do Dirceu, um dos sobreviventes dos coletivos que inundaram o País no início deste século, resiste praticando um sistema colaborativo e horizontal, que reúne artistas de diversas linguagens. Com o 1000 Casas, dedica-se a descobrir como despertar o interesse do morador pela arte, e se o ato de convidá-lo a participar das intervenções realizadas dentro da sua casa é eficiente e realmente o torna corresponsável pela ação artística.

Dessa primeira instalação performática que trazem como resultado, participam 15 dos artistas do Núcleo do Dirceu. "A proposta é realizar o contrário do que fazemos lá. Ao invés de irmos até as casas, pensamos em trazer as casas até aqui, inventando um modo de compartilhar o material que temos, mas não na forma de história sobre o que vem acontecendo, porque nosso foco é descobrir como pensar um ambiente de performatividade hoje."

Como o financiamento que o Núcleo do Dirceu recebeu da Petrobrás se encerra no fim do ano, 2013 vai inaugurar importante mudança na sua trajetória. Depois de 1000 Casas, será necessário descobrir em qual direção seguir.

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