Bengt Wanselius/Divulgação
Bengt Wanselius/Divulgação

Perfil do artista quando jovem

Em Três Solos e Um Dueto, Mikhail Baryshnikov exibe, ao lado de Ana Laguna, experiências de vida

Entrevista com

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

19 de outubro de 2010 | 00h00

Aos 62 anos, Mikhail Baryshnikov vive um momento derradeiro. A partir de hoje, quando apresenta no Teatro Alfa o espetáculo Três Solos e Um Dueto ao lado da bailarina espanhola Ana Laguna, ele inicia a que deverá ser sua última turnê sul-americana. "A julgar pela minha idade, não pretendo voltar mais com um programa tão intenso", disse ele ao Estado, enfatizando que as portas não estão fechadas. "Posso retornar com uma peça de teatro."

A multiplicidade artística marca o atual momento de um dos últimos ícones do balé moderno em atividade. Afinal, ele é também fotógrafo, ator e comandante de seu projeto maior, o Baryshnikov Arts Centre, dinâmica instituição interdisciplinar instalada em Nova York. "Gosto de estar lá todos os dias", comenta, só faltando quando é arrebatado por um projeto como o que divide com Ana e que, além de São Paulo, vai ser apresentado ainda no Rio, Manaus, Buenos Aires e Lima. Criado pelo marido da bailarina, o sueco Mats Ek, trata-se de dança teatral, pois apresenta um resumo da carreira dos dois dançarinos. "É abstrato, portanto, sem parecer um espetáculo apenas alegre", disse Baryshnikov, para quem a dança tem um apelo duradouro ao oferecer um sentido de auto-expressão que transcende a linguagem.

Como é ainda ser desafiado em cena pelo parceiro, uma vez que ambos têm uma longa carreira?

Bem, isso nunca termina. Ana e eu nos impomos desafios a cada cena, a cada passo. Como somos bom amigos, é mais fácil. E, o fato desse nosso pequeno projeto ter nascido há três anos a partir de uma ideia do marido dela, Mats Ek, criou um envolvimento especial. Não se trata apenas de uma coreografia, mas de dança-teatro, algo que mostra nossa evolução ao longo dos anos até desaguar em nosso atual estágio de maturidade. Tornamo-nos mais velhos e esse espetáculo é como o retrato de dois dançarinos em sua maturidade artística. Ana tem boa memória, ela se recorda de que me viu dançar pela primeira vez em Zaragoza, quando tinha 15 anos. Diz ela que eu ainda participava do Ballet Kirov. Sinceramente, não me recordo. Aliás, não sei o que é melhor: lembrar-se ou não se lembrar (risos).

Você já disse que ficou surpreso quando Mats Ek te telefonou convidando para fazer o espetáculo. Como foi?

Foi curioso porque ele apenas disse que tinha um projeto para mim e Ana, mas sem maiores explicações. Ensaiamos o espetáculo em Estocolmo, onde tomou forma, mas não me preocupei, pois conheço o trabalho da família - trabalhei com a mãe dele, a famosa coreógrafa Birgit Cullberg. Aos poucos, o projeto foi crescendo, logo convidamos outros coreógrafos até chegarmos ao formato atual, que reflete nossa força criativa dos últimos três anos: primeiro com solos até atingirmos o auge, no segundo ato, com o dueto. O melhor é que ainda é possível fazer novas descobertas nesse programa, mesmo com seus três anos de trajetória. Não se tornou em uma rotina bocejante.

Um de seus solos, Years Later, oferece uma graça especial por apresentar você dançando com sua própria imagem, quando tinha 17 anos. Como funciona esse tipo de competição consigo mesmo?

Não vejo dessa forma, pois se trata da minha memória. Dança é a combinação de corpo e mente. Há compartimentos no cérebro onde se aloja a memória e onde também surgem os impulsos para se criar o movimento. Mas, se o impulso continua intacto, o mesmo não se pode dizer do corpo. É uma dicotomia: estou mais velho, não posso me esquecer da minha idade, não tenho como evitar. Mesmo com todo cuidado - exercícios diários, vitaminas, ioga -, não tem jeito: a cada dia fica mais difícil. Assim, durante o solo, ao me ver nas imagens com 17 anos, deixo minha imaginação fluir e me conscientizo das minhas possibilidades atuais.

Nesse caso, é possível você incentivar mais a carreira como ator, por exemplo?

Não acredito, embora teatro sempre tenha sido minha paixão antiga, desde muito jovem. Mas, projetos para filmes de TV e cinema são aceitos apenas curiosidade. Não sou ator de Hollywood, apenas me interesso por alguns convites. Sou e sempre serei uma bailarino.

No programa de entrevistas de Larry King, exibido pelo canal a cabo CNN, você disse, há alguns anos, não ser um homem religioso.

Sou cristão, mas não pratico nenhum religião. A criação artística permite a aproximação com um estado de espírito elevado, próximo de algo revelador, mas isso não acontece apenas para quem pratica alguma religião. É próprio do artista, seja músico, escritor ou ator. Claro que não idolatro essa epifania: o teatro não é minha igreja, mas meu trabalho. Respeito todo tipo de manifestação religiosa, mas me dou o direito de questioná-la também.

Em qual aspecto a dança moderna se opõe ao balé?

É difícil definir. Veja um exemplo: a cadeira em que você está sentado agora apresentar um design moderno, que certamente surpreenderia alguém do século 19, mas essa pessoa logo descobriria a função básica que é a de um apoio para se sentar. O mesmo se passa com a dança, cada geração traz austeridade e novas definições, mas a essência continua a mesma. A dança moderna reflete tendências distintas. É uma espécie de compilação de John Cage, Balanchine, Lepage, Bob Wilson, entre outros. Esses artistas ofereceram sua forma particular de encarar o mundo pela arte. Gosto de brincar dizendo que vejo a dança contemporânea como um jogo de pingue-pongue: muito rápida, mas traz, na essência, elementos antigos.

Essa pode ser sua última longa turnê?

Creio que sim. Excursões como essa são muito complicadas e tenho outros projetos em mente. Quero cuidar de meu centro de artes, estudo o projeto de uma peça teatral na Europa e devo participar de uma nova coreografia de Mats Ek, no qual devo dançar um dueto com o irmão dele, Niklas. Enfim, não quero ficar parado.

PROGRAMA

Valse-Fantasie

coreografia de Alexei Ratmansky (2009), solo com Mikhail Baryshnikov

Solo for Two

de Mats Ek (1996), com Ana Laguna e Baryshnikov

Years Later

de Benjamin Millepied (2006 e 2009), com Baryshnikov

Place

de Mats Ek (2007), com Baryshnikov e Ana Laguna

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