Izilda França/Divulgação
Izilda França/Divulgação

Perfeito Glass

Apresentação com Tim Fain mostra por que o músico, aos 74 anos, é celebridade planetária

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

15 de setembro de 2011 | 00h00

Sempre há um gaiato querendo aparecer na sala de concertos berrando "bravoooooooo!!!" antes de todo mundo, quando ainda pairam no ar o gesto e a reverberação dos sons finais de uma obra musical. Mas anteontem, na Sala São Paulo, até um assobio misturou-se aos aplausos na apresentação de Philip Glass e Tim Fain.

Sadio assobio, que me remeteu ao conceito de "musicking" cunhado pelo musicólogo neozelandês Christopher Small, morto aos 84 anos no último dia 7 de setembro, na Espanha. Assobiar é sinal de que o público rompeu o habitual biombo indevassável entre palco e plateia. Musicking (título de seu provocativo livro, de 1998) é um conceito simples: música é ação, objeto, verbo; não um substantivo. E ação da qual participam intérpretes e público. Quando deixamos de aplaudir entre os movimentos, em meados do século 19, a música deixou de ser atividade para assumir-se como objeto de contemplação estética. Àquela altura, os concertos públicos consolidavam-se como principal forma da vida musical europeia. E a música tornava-se clássica, isto é, "elevada", assumia o status de obra de arte. Abria-se ali o fosso entre palco e plateia que só fez aumentar até hoje. "Nosso silêncio durante a performance é sinal de que não temos nada a contribuir, a não ser nossa atenção, para o espetáculo que montaram para nós. Aliás, somos apenas consumidores" (Small).

Nada melhor do que a música viva para mostrar como Small está cheio de razão. Aos 74 anos, Philip Glass é celebridade planetária. Pioneiro da música minimalista na década de 60, compõe até hoje em velocidade espantosa e em todos os gêneros. Foi indicado para o Oscar pela trilha de As Horas e virou pop em definitivo. Está bem longe da "neue musik" europeia e também não é "mero empacotador" de música pop, como ele mesmo já afirmou. A música, afinal, não se justifica só quando inova linguagem, gostem ou não os radicais. Por isso, Glass personifica o conceito d"musicking. Small teria adorado vê-lo anunciar cada peça ao microfone num português macarrônico; curtiria demais os assobios; e festejaria até a amplificação, que não atrapalhou.

A saudável comunhão entre palco e plateia fez com que o virtuose Tim Fain interpretasse seis dos sete movimentos da ambiciosa Partita para violino solo de Glass na primeira parte, e deixasse para o bis o sétimo movimento. Os ouvidos se embalaram com as cançonetas melodiosas de Music for "The Screens" para violino e piano; e Glass, embora não seja exatamente um virtuose ao piano solo, passou a essência de sua criação musical tecida com hipnóticas ondulações repetitivas que no início soam imutáveis, mas embutem novidades quase imperceptíveis. O truque funciona muito bem há meio século e agrada a todo tipo de ouvidos.

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