Perfeito equilíbrio

Perfeito equilíbrio

Dono de estilo próprio, Duduka da Fonseca fala da sua carreira nos EUA

Francisco Quinteiro Pires, O Estado de S.Paulo

20 de março de 2011 | 00h00

A vida de Duduka da Fonseca se define pela busca de algo genuíno. O curioso é que a autenticidade de sua arte não surge da pureza, mas de uma mistura: a do samba com o jazz. "Para ser mais preciso, dos ritmos brasileiros com o jazz", diz o baterista. "Minha batalha foi sempre procurar o perfeito equilíbrio entre esses dois mundos." Em mais de quatro décadas de carreira, ele realizou o sonho de misturar chiclete com banana, a música dos EUA com a do Brasil. Às vésperas de fazer 60 anos, e vai comemorar o aniversário em apresentações no Jazz Standard e no Jazz at Lincoln Center, Duduka está satisfeito, como revelou ao Estado.

"Desenvolvi o meu próprio estilo", diz ele, admitindo ser esse o auge de um instrumentista. "Há músicos com tremenda facilidade técnica, mas sem personalidade." Considerado um dos maiores bateristas de samba jazz em atuação - a revista The New Yorker classifica-o como "soberbo" -, ele se mudou em 1975 para NY, onde desenvolveu os seus traços artísticos e conseguiu tocar com ídolos como Gerry Mulligan e Chet Baker. Seguiu o caminho de outros bateristas brasileiros que se estabeleceram nos EUA: Edison Machado, Dom Um Romão, Airto Moreira e Robertinho Silva. A essa lista de músicos ligados ao jazz podem ser somados o pianista Dom Salvador e o trompetista Claudio Roditi.

"Quando chegamos, o brazilian jazz não estava no mapa", diz. "Vivia-se uma entressafra depois do boom da bossa nova nos anos 1960, por isso não havia tanta coisa acontecendo." O jeito, diz o baterista, foi criar o espaço para o samba jazz ou brazilian jazz. Duduka se refere às duas expressões como sinônimos. Diz que a palavra samba representa os ritmos brasileiros, aí incluídos o baião e o maracatu, desse gênero marcado pela improvisação.

Região de Manhattan, o Soho foi o primeiro lugar a ser conquistado. Quando Duduka desembarcou em Nova York, a cidade enfrentava uma crise econômica e uma onda de violência. "Havia mais liberdade naquele tempo e isso influenciava na criação." Ele se lembra do Bradley"s, piano bar onde jazzistas como Ron Carter se reuniam, após apresentações em clubes, para tocar por prazer até o sol raiar. "Mas é preciso dizer que havia mais desorganização, além de vendedores de drogas em cada esquina." Duduka vê as contradições sem a ânsia de simplificá-las. Ele entende na prática a polêmica afirmação de Tom Jobim: "Morar nos Estados Unidos é bom, mas é uma m... Morar no Brasil é uma m..., mas é bom".

Duduka da Fonseca nasceu em Ipanema - "quando não estava na moda" -, em 31 de março de 1951. O seu gosto musical foi incentivado pela família, principalmente pela mãe. (Militar da Aeronáutica, o pai andava ocupado como piloto do presidente JK.) A vitrola da casa tocava Nat King Cole, Ray Charles, Frank Sinatra, Silvio Caldas, Luiz Bonfá, Dorival Caymmi. Os elepês foram o seu professor de bateria. Na adolescência, fundou o primeiro grupo, Bossa Trio, sucedido cinco anos depois por um sexteto, o Samba Jazz. Essas experiências lhe despertaram a vontade de ir para a terra do Tio Sam.

Desbravados os clubes de jazz nova-iorquinos, Duduka começou a tocar com Astrud Gilberto. Era o início dos anos 1980, quando fez turnês pela América, Europa e Ásia. Em 1983, fundou o Trio da Paz com o violonista Romero Lubambo e o baixista Nilson Matta, em atuação até hoje. Dali em diante, participou da gravação de mais de 200 discos. Cada vez mais respeitado, ele se apresentou no Village Vanguard, Blue Note, Carnegie Hall e Lincoln Center; atuou com Tom Jobim, Gerry Mulligan, Herbie Mann, Kenny Barron. Quando lançou o primeiro álbum solo, Samba Jazz Fantasia, em 2002, foi indicado para o Grammy.

Após conhecer diferentes casas de espetáculo, Duduka elegeu o Village Vanguard, o lendário porão do Greenwich Village, como o lugar preferido para escutar e tocar jazz. "O Village é simples, sem sofisticação tecnológica, mas com uma vibração incrível." Quando está lá, ele larga o hábito de "tomar uma cervejinha" antes de se envolver com os sons. Prefere estar bem sóbrio para não perder algo genuíno que reverbera pelo ar.

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