Imagem Humberto Werneck
Colunista
Humberto Werneck
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Perdidos & achados

Fazia tempo que o ator Carlos Kroeber não visitava sua cidade quando, nos anos 80, voltou a Belo Horizonte. Dispostos a lhe mostrar o quanto havia evoluído a mentalidade na capital mineira, amigos o levaram a um reduto de gente avançada, o bar Stage Door. Carlão não precisou de mais que uns minutos para, solene, reivindicar:

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

23 de fevereiro de 2014 | 02h13

- Fui eu que inventei o homossexualismo em Belo Horizonte.

Pausa.

- Agora estou achando que exagerei...

***

O mesmo Carlos Kroeber tinha uma explicação para a sua exuberante homossexualidade. O pai era alemão e tinha o hábito de murmurar enquanto acarinhava a cria:

- Meu filha...

***

A propósito, eis aqui o que pode ser ilustração do proverbial espírito conciliador dos mineiros: no bochicho da Savassi, em Belo Horizonte, há uma boate que muda de nome conforme o público. Nas noites em que recebe casais convencionais, chama-se Roxy; nas demais, quando se monta para acolher o pessoal GLS, vira Josephine.

Muito se decepciona quem vai à procura de Roxy em dia de Josephine.

Ou não.

***

Já não mais em Minas, mas ainda no assunto. No Maranhão, contaram-me que num remoto desfile de carnaval causou pasmo uma banda de moços - rapazes da banda, também em outro sentido. Um deles, em especial, de lira em punho, se destacava, menos por seu desempenho como instrumentista do que pelos meneios das gelatinosas cadeiras.

- Aquele ali só pode ser - cravou uma senhora.

- Qual? - indagou a amiga.

- Aquele com a lira.

O bastante para que no Maranhão (e também no Ceará) se passasse a chamar gay de "qualira".

***

Numa curva da conversa, o menino me perguntou se a Joana D'Arc se vestia de preto. Cheguei a imaginar que ele tivesse visto uma alguma imagem de Joana na fogueira, com as roupas chamuscadas.

Até que me caísse a ficha, relacionada com algo que então - anos 80 - andava em moda: a Joana era dark?

***

O outro, também sem preâmbulo:

- O que é cultura?

E essa agora? - me perguntei, pilhado em minha espessa, viscosa ignorância, especializada em antropologia. Cultura... cultura - e lá fui eu, na gagueira dos ignaros, a revolver os miolos atrás de um neurônio capaz de saciar a curiosidade do priminho. Tartamudo, pigarreante, enveredei por uma arenga sobre natureza versus cultura, tá entendendo? Pelo olhar do garoto, porém, estava claro que nada, naquela sopa de letras, fazia sentido. Ele mesmo me resgatou da perplexidade:

- Eu tava ouvindo rádio e aí um moço disse assim, no meio da música: "cultuuuura!"

Restou-me correr os olhos em torno, a ver se alguém mais testemunhara o ridículo em que me senti chafurdar.

***

Foi minha amiga Marcele quem chamou atenção para uma pergunta que nunca falta numa primeira conversa.

No Rio: Onde cê mora?

Em São Paulo: O que você faz?

Em Belo Horizonte: Com quê que cê mexe?

Em Brasília: Qual o seu signo? Alternativa: Quem que você assessora?

Em Curitiba: Você descende de quê?

Em Fortaleza, duas indagações consecutivas: 1) Você é de onde? 2) De que família você é lá?

Na despedida, novos e velhos conhecidos dizem:

Em São Paulo: Bom descanso...

No Rio: Passa lá em casa! (Sem, é claro, informar o endereço)

Tudo o que sabemos sobre:
Humberto Werneck

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.