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Perdido

O sumir é a matéria prima dos milagres e lendas. Do navio fantasma, do Robinson Crusoe...

Roberto DaMatta, O Estado de S.Paulo

15 de junho de 2022 | 03h00

Como seres da modernidade, temos dificuldade em aceitar a perda. Como alguém pode sumir com tantos mapas, satélites, aviões, drones, rádios e telefones portáteis? 

Com tantos mecanismos de comunicação e meios que permitem achar o que se procura?

Ou será que o “perder” nos traz à consciência o lado mais profundo de nossa existência: a maldade em lugares perigosos como a Amazônia? Muitos grupos tribais foram massacrados e eu mesmo fui admoestado quando um pistoleiro goiano ameaçou o funcionário da Funai que me acompanhava a ir à aldeia para dar uns tiros nos “cabocos” que, para ele, atrapalhavam a criação de gado. Assustei-me, pois lá estava com minha mulher e filhinhos. 

Imagine agora quando o que está em jogo é ouro, como parece ser o caso do jornalista inglês Dom Philips e do indigenista Bruno Araújo Pereira?

Mas mesmo sendo um sumiço programado por bandidos, o “perder-se” acentua o perigo e o simbolismo da floresta. O sumir avisa que não nascemos para a solidão... 

O sumir é a matéria-prima dos milagres e lendas. Do navio fantasma, do Robinson Crusoe, do Tintin. E nos faz recordar o caso do coronel inglês Percy Harrison Fawcett que, em 1925, teria saído em busca de uma cidade perdida na selva.

Quem jamais entrou na mata, que até faz parte do meu nome, jamais sentiu o poder de se desnortear e não sabe o que é ser engolido pela floresta que esconde o céu. Fica-se à mercê de um guia. Mas lembre-se que o próprio guia, como o rei, também pode se perder. 

Há momentos em que ficamos perdidos e sem rumo, sem planos e sem energia para continuar na senda da perdição final, felizmente desconhecida mas, em muitos casos, anunciada. 

Vivi essa experiência de modo pleno duas vezes. Na primeira, aos 9 anos, quando me perdi num parque de diversões; e, na segunda, quando fui caçar com um nativo Gavião e esperei angustiado pelo sinal do guia já que não sabia voltar para a aldeia.

O que senti seria maior do que meu espaço, como posso esquecer de mim mesmo, com uma espingarda em punho, cercado por todos os lados por uma desconhecida floresta que não fazia o menor sentido para mim, exceto sinalizar que, sozinho, eu jamais seria capaz de voltar à aldeia. Parado e perdido, falava apenas com o meu relógio que assinalava e garantia a minha solidão naquela angústia de ver minutos virarem horas. Perder-se é como encontrar uma palavra sem tradução.

PS: Minha total solidariedade aos familiares e amigos de todos os que ainda estão perdidos e aos que estão na busca.  

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