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Perdido

Em meio ao povo, que flanava comendo pipoca, me desgarrei do grupo e, subitamente, me vi só

Roberto DaMatta, O Estado de S. Paulo

01 Agosto 2018 | 02h00

Quando eu tinha 9 anos, não era órfão e tinha quatro irmãos e uma irmã, numa Belo Horizonte de 1945, tio Mario nos visitou.

Foi uma festa receber o parente como amigo, invertendo a lógica corrente de ter amigos como parentes – “a casa é sua” –, sem pensar que a hospitalidade reafirma como o amigo é mesmo de fora. Lidar com parentes é tão complicado quanto gerenciar a intimidade, às vezes abusiva, dos amigos que entram sem bater, bebem nosso uísque e olham enviesado para as nossas mulheres...

Nossa família, fundada por viúvos com filhos os quais, no curso de sua nova vida, foram abençoados com outros filhos, era singular. Mario foi o caçula e meus pais, filhos desses viúvos, foram irmãos de criação até descobrirem a afinidade amorosa, evitação sensual proibida numa consanguinidade que lhes fora imposta.

Não vou falar dessa fascinante rede de múltiplos elos, que os casamentos realizados numa mesma casa produzem, confundindo consanguinidade e afinidade, parentesco e aliança. Reitero, entretanto, como fiquei perdido com o que deve ter ocorrido com meus pais quando deixaram os papéis impostos de irmãos e escolheram os de marido e mulher. Em paralelo, tive decepção ao aprender que não tinha quatro, mas apenas dois avós.

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A recepção ao Mario incluiu cinema, passeios e uma visita a um parque de diversão. Em meio ao povo, que flanava comendo algodão-doce, pipoca e andava na roda-gigante, eu me desgarrei do grupo e, subitamente, me vi só. Papai e meus irmãos – a rede que me amparava – haviam sumido na multidão do parque. Fiquei perdido...

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Tenho horror a me perder. Como todo brasileiro, não fui treinado para ficar só. Quando li no Globo do dia 21 a matéria “o último índio de Tanaru”, sobre o sobrevivente de uma tribo dizimada por “pioneiros” do progresso, que se arrogam o direito de liquidar essas humanidades que, por acaso, estão no Brasil, lembrei-me de quando fiquei perdido.

Eu fui achado, mas o índio está perdido. Como viver sem sua coletividade na qual o impessoal é uma exceção e não há o aristocrático “Você sabe quem está falando?”.

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O índio solitário levou-me também a 1961, quando, com o hoje consagrado etnólogo Júlio Cezar Melatti, morei de agosto a novembro com os índios gaviões, no Pará; um grupo recém-contatado a sofrer a tragédia da população causada por doenças e conflitos com castanheiros. Três dias depois da nossa chegada, fui destemidamente caçar com um dos nossos hospedeiros. Andamos por cerca de 50 minutos floresta adentro até que ele ouviu os porcos. Ordenou que eu – surdo para os ruídos da floresta – esperasse. Obedeci, mas a ansiedade era imensa. Depois de 40 minutos, e certo de que jamais poderia voltar para a aldeia, descobri que estava – agora sim – completamente perdido!

Não era mais num parque de diversão, mas no meio da mata amazônica. Quando, para meu alívio, o caçador chegou correndo atrás de dois porcos, voltei ao real e atirei. Só que matei o porco errado: um filhote que deveria ser levado à aldeia. Depois de uma severa repreensão em língua jê-timbira, ouvi um forte “branco não presta!”. De volta à aldeia, minha bizarrice como caçador virou piada.

Nunca mais voltei a caçar. Aprendi que a questão não é perder-se, mas ser procurado e achado. O índio sem tribo é a versão trágica de um Robinson Crusoe sem Inglaterra. O menino perdido em Belo Horizonte, porém, continua perdido. Tem sido uma luta achá-lo em minha consciência.

Quando contei essa história para Dick Moneygrand, ele disse: “Assim é a vida. Passamos o tempo todo perdidos e, finalmente, somos achados pela morte”.

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PS: Tenho uma foto comemorativa dessa comédia de erros reveladora dos impulsos da juventude e do momento em que, honrando meu nome, virei Roberto da mata.

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