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Lúcia Guimarães
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Perdedores em primeiro lugar

Qual a palavra do ano? Os juízes do mais tradicional concurso de miss vocabular na língua inglesa, os acadêmicos dos Dicionários Oxford, escolheram vape, uma abreviação de vaporizar ou vapor, por causa da moda de cigarros eletrônicos.

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

29 Dezembro 2014 | 02h03

As listas de fim de ano - melhores e piores - passaram por uma transformação graças à velocidade da mídia digital. Os algoritmos são o equivalente matemático do populismo cultural. Se especialistas ou críticos eram consultados sobre os maiores avanços científicos ou melhores livros do ano, os fenômenos virais e a facilidade de se aferir o que é popular transfere o poder das listas às nações online.

Voltando ao vape: soa mal, em inglês ou qualquer língua que conheço. O instituto de pesquisa que tem expediente incerto aqui na cozinha, geralmente enquanto estou coando café, elegeu vencedora outra palavra que, embora não tenha despontado em 2014, resume melhor a realidade e a consciência global este ano.

Desigualdade.

O economista mais influente de 2014, o francês Thomas Piketty, com seu best-seller Capital no Século XXI, levantou a cortina sobre o aumento da desigualdade ao examinar estatísticas de renda em 20 países, ao longo de 300 anos. Mas uma cortina continuou fechada quando Piketty tentou, em vão, obter do governo brasileiro dados históricos e atuais sobre declarações de imposto de renda. O que o Planalto queria esconder? Que a desigualdade de renda no Brasil aumentou na última década e os dez por cento mais afluentes passaram a abocanhar uma fatia maior da riqueza do país? O governo federal ainda não tinha certeza, mas seu apego a cortinas é comparável ao do Mágico de Oz. Ao encomendar ao Ipea uma pesquisa para ver aonde Piketty queria chegar, chegou lá e engavetou os números.

Sim, estamos competindo com os Estados Unidos no campeonato da desigualdade social. Piketty argumenta que a desigualdade é inevitável na medida em que os afluentes detentores de imóveis, heranças e investimentos sempre ficarão à frente de assalariados. De passagem pelo Brasil para lançar seu livro, ele declarou que a desigualdade no Brasil é provavelmente subestimada. Qualquer assalariado da classe C dispensa doutorado em economia para saber que, quando um pesquisador do PNAD bate à porta de um afluente brasileiro, o entrevistado vai subestimar sua renda. Já a sua declaração ao Leão é um retrato mais fiel da distância que o separa dos noventa por cento da população.

Não sei o que a turma dos Dicionários Oxford estava fumando quando escolheu vape, mas os Estados Unidos, que se recuperaram da grande recessão de 2009 mais rápido do que a Europa, é desigualdade que está bombando, tanto o mal como a palavra. A recuperação americana incluiu a esperada euforia no mercado de capitais, mas, pela primeira vez na história, excluiu a classe média, que durante quase meio século, acreditou no aforismo popularizado por John Kennedy, "A maré que sobe levanta todos os barcos".

A mulher mais demonizada por Wall Street é a senadora Democrata Elizabeth Warren, uma crítica da impunidade da indústria financeira e do passe livre fiscal que permitiu a volta da desigualdade a níveis pré-Grande Depressão, em 1928. Embora afirme que não vai se candidatar a presidente, Warren começa a erodir a concentração de capital político de Hillary Clinton até agora tratada como candidata com a inevitabilidade de sucessões monárquicas. Não será surpresa se a mulher de Bill Clinton, cuja presidência foi um modelo de lua de mel com Wall Street, começar a citar números como este: nos Estados Unidos, 300 mil detêm a riqueza equivalente à de 280 milhões.

A desigualdade deixou de ser província ideológica da esquerda. Assim como a desigualdade brasileira aumentou sob a dinastia petista, a desigualdade americana foi apropriada pelo Partido Republicano para dar uma surra nos democratas na eleição intermediária de novembro. Quando o Fórum Econômico Mundial perguntou a dois mil líderes globais qual a tendência que mais ameaça o mundo em 2015, a maioria respondeu: o aumento da desigualdade.

Num detalhado exame do calvário em que se transformaram as viagens de avião, "A Guerra das Companhias Aéreas Contra os 99%", um jornalista vê na aviação comercial o reflexo de um mundo cada vez mais desigual e sugere que a distribuição de espaço nos assentos pode seguir um modelo Piketty de análise - os ricos cada vez mais espremem a classe econômica. No artigo da revista The American Prospect, Harold Meyerson escreve que, diante da disparidade de acomodações, "Como folhetim sócio econômico, o Titanic poderia ter nova versão a bordo de um avião".

Desigualdade, um iceberg na noite de capitães negligentes.

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