Percussão bem temperada

Cyro Baptista revê Villa-Lobos na turnê americana de Vira-Loucos

Tonica Chagas, O Estado de S.Paulo

15 de outubro de 2010 | 00h00

O percussionista Cyro Baptista compara a um nocaute a magnitude do que sentiu, em 1996, quando foi tocar com a New World Simphony, de Miami, e ouviu composições de Villa-Lobos (1887-1959) pela primeira vez lá no meio de uma orquestra. "O Villa foi o maior antropófago da música brasileira", diz Cyro, extasiado com o modernismo do compositor. Quem assistiu ao show Vira-Loucos na quarta-feira à noite no Carnegie Hall, em Nova York, pode dizer o mesmo de Cyro, pela forma que ele deglutiu Villa-Lobos, bem temperado com cantigas de roda, instrumentos como um órgão de canos de PVC tocado a chineladas, ritmos de vários cantos do mundo e muito bom humor.

Em Vira-Loucos, Trenzinho Caipira, Choro n.º 8, Dança do Índio Branco e outras obras de Villa-Lobos se integram a composições como Passion in the Basement, do próprio Cyro em parceria com Naná Vasconcelos, e canções infantis como Teresinha de Jesus, Sapo Cururu e Atirei o Pau no Gato. A maior parte delas vem do primeiro disco do percussionista, Villa-Lobos/Vira-Loucos, gravado em 1997, no Japão. Apresentado no Zankel Hall, um dos três auditórios do Carnegie Hall, Vira-Loucos é uma comemoração dupla para o brasileiro a quem o jazzista Winton Marsalis considera "um dos maiores músicos do mundo". Vira-Loucos marca seus 60 anos de idade e 30 da vida dele em Nova York, de onde ganhou projeção internacional tocando em discos e turnês de gente como Laurie Anderson, Sting, Paul Simon, David Byrne, Brian Eno, James Taylor, Carly Simon, Bobby McFerrin e Yo-Yo-Ma.

Cyro lembra que, ao ser chamado pelo maestro Michael Tilson Thomas para ajudar na escolha de um repertório de Villa-Lobos para a New Word Simphony executar, sua primeira vontade teria sido pegar o berimbau e cantar as músicas folclóricas brasileiras que foram fonte de inspiração para o compositor. Veio daí a ideia de explorar os vários elementos de percussão que predominam no trabalho de Villa, o que deu no primeiro disco de Cyro.

Antes do Carnegie Hall, Vira-Loucos só tinha sido visto ao vivo uma vez, num festival na Áustria, no mesmo ano em que o disco foi gravado. Cyro o escolheu para comemorar seu aniversário de nascimento e de nova-iorquino porque anda às voltas com a antropofagia de novo. O quarteto Banquet of the Spirits, uma das quatro formações que ele comanda, corporifica o movimento cultural brasileiro da segunda década do século passado, comendo, engolindo e digerindo todas as tendências musicais que seus componentes experimentam.

O show iniciou ontem uma turnê por cidades norte-americanas, da Virgínia ao Texas. Nele Cyro reuniu os brasileiros Romero Lubambo (violão e cavaquinho) e Vanessa Falabella (vocais), o canadense Kevin Breit (guitarra e banjo), e os americanos Tim Keiper (bateria), Michael Ward-Bergeman (hiperacordeão), Shanir Blumenkranz (baixo acústico) e John Zorn (sax), que foi quem produziu o primeiro disco dele. Todos participam ou já fizeram parte de outros projetos e formações criados pelo percussionista, principalmente no grupo Beat the Donkey (nome que vem da expressão brasileira "pau na mula").

Mestre. No Carnegie Hall teve também a participação de 21 crianças do coro do Garage Theatre Group, uma companhia criada na Fairleigh Dickinson University, em Teaneck, no Estado de New Jersey, vizinho a Nova York. Trabalhar com crianças é o mais recente projeto de Cyro, seguindo os passos de Naná Vasconcelos, a quem ele louva como seu grande mestre.

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