Percurso nostálgico

Filme refaz jornada original dos Villas Bôas realizada em 1958

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2013 | 02h12

No romance Quarup, Antonio Callado faz um personagem, o sertanista Fontoura, encontrar um imenso formigueiro plantado no centro geográfico do Brasil. Metáfora, claro, de um tempo convulsionado, do País simbolicamente descentrado que o escritor fluminense retrata em seu mais famoso romance. O livro foi publicado em 1967 em plena ditadura militar.

O que Antonio Callado não diz é que a procura pelo centro geográfico data da época do Marechal Cândido Rondon, no início do século 20. Foi retomada durante o governo Vargas. E, quase 50 anos depois das primeiras tentativas de Rondon, a tarefa foi confiada aos irmãos Villas Bôas em 1958 pelo então presidente Juscelino Kubitschek. O centro foi demarcado em área de reserva ambiental, no Alto Xingu.

Cinquenta anos depois de o marco haver sido colocado, o documentário O Coração do Brasil refaz a grande aventura da sua demarcação, levando de volta três dos integrantes da expedição original - Sergio Vahia de Abreu, o documentarista inglês Adrian Cowell e o cacique Raoni.

O filme intercala cenas da expedição de 2008 (captadas pelo grande diretor de fotografia Aloysio Raulino, morto na quinta) e material de arquivo, incluindo registros da expedição de 1958. Há, por um lado, a paixão de refazer o trajeto, o que para os personagens, 50 anos mais velhos, tem importância pessoal. Uma espécie de recuperação do tempo, que foge de maneira inexorável - basta lembrar que os irmãos Villas Bôas, Leonardo, Cláudio e Orlando já estão todos mortos.

Mas há também a constatação, por vezes melancólica, de que a realidade da floresta e dos próprios índios mudou muito desde então. Uma cena define muita coisa: no início da expedição, um líder indígena exige que a expedição lhe entregue um barco e um motor de popa a título de "pedágio" para poderem avançar território adentro. Em seu português trabalhoso, diz: "Agora é muito diferente dos tempos dos Villas Bôas. Índio agora sabe mais". Como a dizer que se o branco pretende refazer seu percurso nostálgico ele deve pagar por isso, como qualquer turista. Há essa nota de desencanto e ela volta a soar diversas vezes ao longo do filme.

Mas há também a questão da superação pessoal. Os velhos expedicionários já não têm a mesma energia de antes, mas continuam sedentos de aventura, e seu amor pela natureza e pelos índios segue intacto. Assim como seu bom humor. Brincam o tempo todo, inclusive sobre as atuais más condições físicas. Dizem que o senso de humor é equipamento que nenhum aventureiro pode deixar de incluir em sua mochila; ele não pesa e o socorre nos momentos mais difíceis. E eles se lembram de muitas passagens críticas naquele processo de desbravamento do Brasil Central.

Cabe também a Cowell (morto em 2011 e a quem o filme é dedicado), um dos grandes documentaristas do sertão brasileiro, a contextualização daquela busca do centro geográfico, finalmente lograda em 1958. Fazia parte do processo de interiorização proposto por Juscelino, e que culmina com a fundação de Brasília em 1960. Ocupar os imensos espaços de baixa densidade demográfica do País, desafogar a concentração populacional litorânea, na chamada Marcha para o Oeste, que começa com Vargas e continua com JK. Daí a obsessão pelo centro de um país encostado em sua faixa litorânea.

Significativamente, a expedição de 2008 tem de fincar novo marco do centro geográfico. O original já fora devorado pelo tempo. A imensa árvore que lhe servia de referência também já não estava mais lá. Possivelmente fora derrubada.

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