Percurso de um diário mundial

A trajetória da elaboração dos manuscritos da jovem Anne Frank é reconstituída

Elias Thomé Saliba, O Estado de S.Paulo

19 de junho de 2010 | 00h00

São inúmeros os exemplos do impacto que o Diário de Anne Frank provocou na cultura mundial, desde as suas primeiras edições. Das controversas adaptações para o teatro e o cinema até aos desafios enfrentados hoje por professores que adotam o livro nas escolas - é esta a intrincada trajetória do livro que Francine Prose nos revela em Anne Frank, a História do Diário Que Comoveu o Mundo.

Prose começa reconstituindo toda a história da elaboração dos manuscritos. O ponto essencial é que, dois anos depois de sua composição original, Anne reescreveu o rascunho das seções iniciais do Diário, colocando inclusive um título original, O Anexo Secreto. O legado textual compõe-se de três versões do manuscrito: o rascunho original de Anne; as revisões que ela fez; e o livro que seu pai produziu, combinando as versões. Prose mostra que o livro não é estritamente um diário, mas "uma obra de memórias na forma de entradas de diário" e, acima de tudo, obra de literatura conscientemente elaborada e surpreendente.

Mas a história do livro não para aí. Traduzido para uma centena de línguas, entrou no rol daqueles livros que geram emoções intensas, infinitas discussões sobre quem teria o direito de falar em nome de Anne, o que o seu livro representa ou deixou de representar. Prose acompanha ainda a longa jornada de passagem da página impressa para o palco e para a tela, envolvendo processos, traições, alianças, acusações de plágio, quebras de contrato e uma paranoia relacionada a conspirações sionistas ou stalinistas.

O desejo de extrair lição afirmativa da história explica também o fato de que a Anne que visita as salas de aula e que a literatura pedagógica descreve é mais parecida com a da Broadway e de Hollywood do que com a Anne que encontramos no diário. Fala-se de seu otimismo e determinação, mas poucos reconhecem que se tratava de uma jovem e complexa artista que teve uma morte precoce e trágica.

A resposta sobre o encanto provocado pelo livro vem afinal dos próprios alunos de Prose, no Bard College. Os estudantes sabem que Anne escreveu a história de oito judeus obrigados pelos nazistas a passar dois anos num sótão. Mas também está descrevendo como é ser jovem e o que os alunos descobrem é a firmeza e a decência fundamental da autora, sua crença de que a dignidade humana prevalecerá.

ELIAS THOMÉ SALIBA É PROFESSOR DE TEORIA DA HISTÓRIA NA USP E AUTOR, ENTRE OUTROS, DE RAÍZES DO RISO (COMPANHIA DAS LETRAS)

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