Rui Tavares Duarte/Divulgação
Rui Tavares Duarte/Divulgação

Percpan de Cara Nova à beira da maioridade

17ª edição do evento começa hoje em Salvador com dois novos curadores

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

29 de setembro de 2010 | 00h00

A essência é a mesma de quase duas décadas: força na percussão. Prestes a se tornar "maior de idade", o Percpan - Panorama Percussivo Mundial, no entanto, mais uma vez se renova. Para começar, este que é um dos mais importantes e inventivos festivais do continente conta com dois novos curadores - o antropólogo paraibano Hermano Vianna e o jornalista e pesquisador espanhol Carlos Galilea - a partir desta edição. A diversidade, que é sua outra característica marcante, agora se amplia, com diversas manifestações sonoras vindas das periferias para os grandes palcos do mundo, em que o tambor, os vocais, os metais e os timbres eletrônicos convivem em harmonia.

Inicialmente com Naná Vasconcelos e Gilberto Gil no comando, o festival foi, naturalmente, mudando de cara pelas mãos de Arrigo Barnabé e, nos últimos anos, Marcos Suzano. Chegou a se desvirtuar num certo período, adquirindo um perfil mais pop e menos percussivo, o que provocou a saída de Naná, mas sabiamente retomou o rumo ao som dos tambores.

"O festival está entrando na idade adulta. Tem de crescer, tem de mudar, andar com outras perspectivas", diz a antropóloga e empresária Beth Cayres, idealizadora e organizadora do evento desde sua primeira edição. "Mas o importante é que a gente não deixou a base, que são a percussão, a pluralidade, o intercâmbio, esses atributos que o festival tem desde o início, mas abrindo mais."

É um manancial de ritmos e misturas diferentes, como o kuduro de Angola com hip-hop e funk carioca via Curitiba (O Bonde do Rolê participou do mais recente CD do Buraka-Som Sistema), o jazz fundido com as bases do candomblé (como fazem os baianos da Letieres Leite & Orkestra Rumpilezz), a música tradicional mexicana misturada com eletrônica (pelo Nortec Collective, vindo de Tijuana, na fronteira com os Estados Unidos), música de rua de Chicago (Hypnotic Brass Ensemble) e do Rio (Bloco Cru), também mesclando novas linguagens com elementos tradicionais, percussão corporal com teatro e dança (as portuguesas Tucanas), um amálgama de música de inspiração cigana com ritmos turcos e acento latino (Kocani Orkestar, da Macedônia), vodu africano com funk e soul (Orchestre Poly-Rythmo de Cotonou, do Benin), os sons afro-peruanos do Novalima cruzando com dub e house, e muito mais.

Nova curadoria. É notável a influência dos novos curadores na formação do elenco. Beth conta que já tinha trabalhado com Hermano - teórico brilhante, com estudos sobre o samba e o funk carioca, entre outros, e responsável por boa parte do mapeamento de novas manifestações musicais das periferias brasileiras - em outras ocasiões, como na Copa da Alemanha, além de outro Percpan. Carlos Galilea é um dos mais importantes jornalistas de música na Espanha, escreve no diário El País, tem programa de rádio, blog, é pesquisador e especializado em música brasileira.

"Carlos tem um perfil muito parecido com o do Hermano, trabalhamos juntos ouvindo grupos muito interessantes durante meses", conta Beth. Daí veio a proposta de dividir o festival em três noites temáticas: uma unindo sopros e percussão, outra apresentando grupos de três continentes e uma terceira, que é uma festa dançante. Para esta o festival migra do tradicional Teatro Castro Alves para a Concha Acústica, em Salvador, que fica no fundo do teatro.

Grandes grupos de quatro continentes vão circular em clima de festa e celebração por três cidades: Salvador, Rio e São Paulo, levando "paulistas para Salvador e baianos para o Rio". É a edição das big bands, formando um dos elencos mais significativos, modernos e empolgantes da história do festival. "É muita gente viajando. Percussão aglutina muito. E grupos de sopros e ligados à música eletrônica são todos grandes. Aí embarcamos nessa de trazer todo mundo. Acabamos chegando a esse formato."

Cada noite também vai ter mestres de cerimônias. Iggor Cavalera e o projeto eletrônico Mixhell vão abrir para o Buraka-Som Sistema no Rio e em São Paulo. Os bateristas de dois grandes grupos de rock brasileiros - João Barone, dos Paralamas, e Charles Gavin, ex-Titãs - vão fazer apresentações especiais em Salvador e no Rio.

"Só é possível trazer tantas pessoas porque temos patrocínio da Oi há três anos", observa Beth, que já viu seu projeto minguado em anos anteriores por falta de verba. Ainda assim, desta vez só conseguiu trazer um grupo para São Paulo, o Buraka.

"Aconteceu uma coisa muito desagradável em relação a São Paulo. A gente levou o projeto para o ProAC (Programa de Ação Cultural, da Secretaria de Estado da Cultura), foi aprovado no final de julho, tínhamos o patrocínio. Como se trata de um incentivo mensal, quando chegamos com o patrocinador, o dinheiro da lei já tinha acabado", conta.

PROGRAMAÇÃO

Salvador:

Hoje (dia 29):

Noite Sopro-Percussiva (Teatro Castro Alves):

Apresentação: Charles Gavin

Movimento Elefantes (S.Paulo)

Kocani Orkestar (Bálcãs)

Hypnotic Brass Ensemble (EUA)

Amanhã (dia 30):

Noite Três Continentes (Teatro Castro Alves):

Apresentação: João Barone

As Tucanas (Europa - Portugal) Orchestre Poly-Rythmo de Cotonou (África - Benin)

Novalima (América do Sul - Peru)

Sexta (dia 1º):

Noite Festa (Concha Acústica):

Nortec Collective (México)

Edcity (Brasil, Bahia)

Rio de Janeiro:

Segunda-feira (dia 4):

Noite Três Continentes (Teatro Oi Casa Grande)

Apresentação: João Barone

As Tucanas

Orchestre Poly-Rythmo de

Cotono

Novalima

Terça-feira (dia 5):

Noite Sopro-Percussiva (Teatro Oi Casa Grande)

Apresentação: Charles Gavin

Letieres Leite e Orkestra Rumpilezz (Brasil, Bahia)

Koçani Orkestar

Nortec Collective

Quarta-feira (dia 6):

Noite Festa (Canecão)

Apresentação: Iggor Cavallera e Mixhell

Buraka-Som Sistema (Portugal/Angola)

Bloco Cru (Brasil, Rio)

Hypnotic Brass Ensemble

São Paulo:

Quinta-feira (dia 7):

Via Funchal

Apresentação: Cavalera/Mixhell

Buraka-Som Sistema

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