Percorso erra ao explicar 4'33'

Em hipótese nenhuma pode-se antecipar para o público o desfecho de uma piada. Esse tipo de erro compromete não só o bom contador de piadas, como estraga a performance de uma obra como 4"33", de John Cage, como aconteceu no dia 26, no auditório do Sesc-Vila Mariana, no interessante concerto do grupo de música contemporânea Percorso Ensemble inteiramente dedicado às obras do compositor norte-americano. Ricardo Bologna, líder do Percorso, jamais deveria ter explicado à plateia como seria a performance de 4"33", ainda que boa parte dos presentes soubesse do que se tratava. Afinal, a peça para piano-solo em três movimentos só funciona se provocar surpresa em ao menos um dos espectadores.

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

04 de junho de 2010 | 00h00

Enfim, os 4"33" de silêncio dos quatro integrantes do Percorso acabaram chochos, inúteis. Pois a tese de Cage ? de que o silêncio absoluto não existe, e de que tudo é música, tanto o que se produz no palco como os ruídos que vêm da plateia ? só foi verbalizada no discurso.

E essa peça exige mais do que nunca o exercício engessado da liturgia da interpretação clássica. David Tudor, pianista que a estreou em agosto de 1952, diz numa entrevista: "Li atentamente as instruções da partitura, que mostrava as 32 casas vazias do I Ching (as outras 32 pressupõem sons), virei as páginas da partitura com barras de compasso".

O concerto enfocou basicamente as obras da primeira fase criativa de John Cage (1912-1992), certamente o maior revolucionário da música do século 20. Schoenberg acertou em cheio quando disse que ele era um "inventor" mais do que compositor. Da Sonata para Duas Vozes a Segunda Construção, Credo in US, Music for Marcel Duchamp e Experiences n.º 2 estende-se um arco histórico de 15 anos decisivos e geniais, entre 1933 e 1948.

Naquele período, Cage incorpora primeiro instrumentos exóticos de percussão folha de zinco, gongo na água, sinos indianos; consolida a invenção do piano preparado inventado por Henry Cowell, transformando-o numa usina de percussão ao colocar parafusos, borracha e outros objetos entre as cordas do piano; e namora com o acaso, paixão que curtirá até o fim da vida. O ponto-limite deste processo é, sem dúvida, 4"33", em sua busca impossível do silêncio absoluto.

Excelência. Daí a minha implicância com o modo como ela foi apresentada por Bologna. Como, no palco, ninguém parecia acreditar na provocação da peça, a plateia também desencanou. Bologna, aliás, nos comentários sobre as obras trocou o sexo do coreógrafo e bailarino Merce Cuningham, companheiro de Cage por muitas décadas. Mas as demais execuções foram de excelência, com Bologna, Eduardo Gianesella e Richard Fraser pilotando o arsenal de percussão e Horácio Gouveia o piano, quase sempre preparado.

Um último reparo, desta vez à peça Credo in US. Escrita em 1942, seu título joga com a ambiguidade entre US (Estados Unidos) e us (nós). Foi sua primeira peça para seu amado Merce Cuningham e a primeira vez em que combinou gravação de música convencional clássica com sua música: disco e a escrita de Cage dialogam, interrompem-se, comentam-se, etc.

A escolha do Percorso ? uma sinfonia de Shostakovich ? não foi feliz. Numa gravação hoje clássica, feita nos anos 70 para a EMI Classics, utilizou-se uma gravação da Sinfonia Novo Mundo, de Dvorák, que tem tudo a ver com o título da peça.

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