Perante o abismo

Werner Herzog filma no corredor da morte para discutir condição humana

Michael Cieply, O Estado de S.Paulo

11 de setembro de 2011 | 00h00

THE NEW YORK TIMES

LOS ANGELES

"Quando falo com você, não significa necessariamente que precise gostar de você", diz Werner Herzog em off ao preso Michael Perry, na abertura de Into the Abyss, novo documentário sobre a execução de Perry no Texas, no ano passado, pelo assassinato de uma enfermeira de 50 anos, Sandra Stotler. "Mas eu o respeito, e você é um ser humano; não acho que os seres humanos devam ser executados."

Herzog começa então a fazer várias perguntas sobre Perry e outras pessoas que tiveram alguma participação em sua vida - e morte. Foram as drogas? Você tinha esperança? Por que as vítimas morrem? Aqui ele desempenha a função do repórter, aparentemente sem o objetivo de resolver as questões que persistem sobre o crime - o assassinato a tiros de revólver, na mesma noite, do filho de 16 anos da enfermeira e de seu amigo - mas principalmente no intuito de testar o repúdio de Herzog pela pena de morte num contato direto com o assassinato e suas consequências. Falando ao telefone no dia 3, minutos depois de apresentar Into the Abyss no Festival de Cinema de Telluride, no Colorado, Herzog afirmou que "meu negócio não é a culpa ou a inocência".

A apresentação do seu filme assinalou o início do que promete ser uma rica temporada de documentários. Na quinta-feira, Herzog e Into the Abyss estiveram no Canadá para o Festival Internacional de Cinema de Toronto, onde o gênero do reality-film marcará uma data histórica. Pela primeira vez na história dos 36 anos de existência do festival de Toronto, foi apresentado um documentário na noite de abertura: From the Sky Down, de Davis Guggenheim, sobre a banda U2.

Populismo. "É um fato muito significativo porque os documentários estão crescendo em importância, tanto nos festivais quanto em termos culturais", disse Thom Powers, o curador responsável pela sessão de documentários em Toronto. Vários dos que serão apresentados este ano no evento têm o que Powers chama de tendência "populista". O documentário sobre o rock de Guggenheim; Comic-Con Episode Four: A Fan"s Hope, de Morgan Spurlock, sobre uma convenção anual da fantasia em San Diego; e The Last Gladiators, de Alex Gibney, sobre brigas de jogadores de hóquei, procuram "abrir novos mercados" fora de Nova York e Los Angeles, onde a maioria dos documentários sobre temas sérios tem um público garantido.

Outros documentários que serão exibidos no festival estão mais próximos do que para muitos dos seus realizadores é sua missão fundamental: corrigir as injustiças ou oferecer oportunidades aos mais fracos com a ajuda de uma câmera.

Neste sentido, os diretores Joe Berlinger e Bruce Sinofsky estarão em Toronto com Paradise Lost 3: Purgatory, o terceiro de uma série de filmes nos quais eles questionam a prisão de três homens pela acusação de assassinato, inclusive Damien Echols, que estava no corredor da morte no Arkansas até que, em agosto, um acordo permitiu sua libertação.

E lá estará Herzog, um veterano realizador que usa o documentário para investigar a mente de um amante da natureza devorado em um encontro infeliz com alguns ursos em Grizzly Man, e para uma exploração em 3-D de pinturas rupestres pré-históricas em Cave of Forgotten Dreams. Herzog mora em Los Angeles, mas diz que não pretende se naturalizar por sua profunda aversão pela pena capital, em razão das experiências vividas na infância na Alemanha da época da guerra. Into the Abyss, segundo o seu produtor, Erik Nelson, se baseou no projeto de Herzog para uma série de documentários para a televisão sobre condenados à pena de morte, para a rede Investigation Discovery.

Impacto. "Werner caiu no buraco do coelho particularmente neste caso", afirmou Nelson, ao explicar como Into the Abyss se tornou um longa-metragem. Segundo ele, o diretor tinha apenas uma entrevista filmada com Perry, realizada em junho de 2010, cerca de duas semanas antes da sua execução. E optou por não explorar o fato de o seu personagem se declarar inocente. Ele se limitou a fazer uma simples anatomia do crime e de sua punição, como Truman Capote, há cerca de 50 anos, em A Sangue Frio.

Durante uma rápida conversa na convenção Comic-Con International em julho, Herzog, que ainda estava montando Into the Abyss, disse que estava excessivamente abalado pelos encontros com Perry, seus cúmplices, seus perseguidores e com a família da sua vítima para trabalhar no filme por mais de algumas horas por dia. "Comecei a fumar de novo", contou. Into the Abyss, segundo o diretor, fez com que ele se sentisse emocionalmente abalado com confronto íntimo que se estabelece com o uso da câmera. "Você está sentado a um metro de distância de um assassino condenado, e discute simplesmente a proximidade da sua morte", disse. "Ninguém nunca fala este tipo de coisa com eles." / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

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