Pequenos grandes momentos de uma cidade

A memória afetiva disparou. Há anos não via um MP Lafer, sonho impossível ao meu bolso

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

18 Agosto 2017 | 02h00

Semana passada, vinha pela rua, me deliciando com os primeiros bacuparis de meu pequeno pomar de terraço, quando dei com o carro parado na loja do Teo. Ele fulgurou à minha frente, a memória afetiva disparou. Há anos não via um MP Lafer, sonho impossível ao meu bolso. Minha rua, ao longo dos 23 anos em que estou aqui, foi desfigurada gradualmente. Uma vila inteira foi demolida, uma fonte de água desapareceu, 20 sobradinhos foram ao chão com seus quintais intensamente arborizados, no lugar veremos dois prédios. Várias lojas de luminárias, de antiguidades, de design também não resistiram, engolidas. 

A casa do ‘seu’ Chico repleta de frutas era uma chácara, está fechada desde que ele morreu. A cada temporada recebíamos bacias de jabuticaba-Sabará, doces, doces. Pepe o sapateiro, há 30 anos no mesmo lugar foi despejado, o açougue e a banca de jornais do Cid foram fechados com a crise. Quando o Teo chegou, trazendo o design, a rua retomou algo de sua elegância.

O carro me deslumbrou porque sempre foi assim desde que apareceu no mercado na década de 1920, na Inglaterra. Simples e elegante. Naquela época, era MG. Teve vida de sobressaltos, até a fábrica Morris Garage falir em 2006; hoje, está em mãos dos chineses, sempre eles. Vão restaurá-lo. O MP Lafer foi a réplica brasileira do MG inglês criado por Percival Lafer, na década de 1970. O carrinho esporte conversível foi objeto do desejo de minha geração, no início dos anos 60. Era um fascínio vê-lo pelas ruas, conversível, o vento desarrumando os cabelos das mulheres que acompanhavam motoristas afortunados. Pequeno, audacioso no desenho (ainda não se dizia design), futurista, ao mesmo tempo sóbrio dava sensação de poder, riqueza, arma para a sedução. Ele me transmitia alegria e liberdade quando circulava, leve, em meio a um oceano de carros pesados, negros, sem graça.

Se um dia tiver um carro, quero este, eu dizia olhando para o MG. Ele foi meu ícone por um tempo, afinal cultivava James Dean, que era ligado em carros e velocidade, tanto que morreu aos 24 anos dentro de um Porsche 550 Spyder. Porsche era um sonho distante (sonhar o sonho impossível), assim nosso sonho era o MG. Dava na mesma, tão inacessível quanto. Nas portas de boates grã-finas, como a Oásis, o Cave, o Michel, víamos playboys ou old boys estacionando o MG, com uma bela mulher ao lado. Os carros davam status, sonho de jovens adolescentes embalados pela publicidade de consumo. Depois, as utopias se tornaram políticas.

Na semana passada, quando dei com o MP, entrei e me vi diante do homem que o tinha recriado no Brasil, a partir de um sonho pessoal, Percival Lafer. Ele é designer de móveis há mais de 60 anos e fez um dia o seu MP Lafer. Por anos, foi uma sigla quase secreta. Agora, soube que queria dizer Móveis Patenteados Lafer. Habilidade no logo e no merchandising. No início dos anos 1970, voltamos a ver nas ruas o MG, dessa vez MP criação Percival, homem de mente agitada e corpo franzino, mas brilho no olhar e que tem a mesma idade que eu e teve o mesmo sonho lá atrás. Queria um carro daqueles. Em lugar de comprar um, refez o modelo, que já desaparecera das ruas. Não durou muito, porém marcou presença, se mitificou.

Ícone, ainda hoje há quem o procure. Há até um livro delicioso de Jean Tosetto, contando sua história: MP Lafer, A Recriação de Um Ícone. Porque o fã-clube de colecionadores é vasto. Aquela tarde de quarta-feira passada foi uma volta no um tempo. Entrei em busca de uma coisa, encontrei o que desejava e mergulhei também em outro tesouro (digamos ): uma coleção dos móveis criados por Percival desde os anos 1950. Criações originais que marcaram época como invenção, conforto, futuro. Percival desenhava o móvel e fazia também a máquina para executá-lo. Há pessoas para quem o presente não existe. Eles vivem no futuro e esse é o tempo presente para eles. Nele é que se sentem bem. Do futuro constroem o agora. Conhecer Percival foi pura emoção. Quanto ao MG (no filme 007 Contra o Foguete da Morte, Roger Moore dirigiu um MG), andei nele algumas vezes, o pintor Wesley Duke Lee tinha um. Foi tudo. Não sei se por essa frustração jamais aprendi a dirigir. Quanto a Percival, poucos sabem que foi ele quem desenhou aqueles antigos orelhões ovais amarelos, diferenciados que víamos pelas ruas. Há dias especiais. Aquela quarta-feira foi uma, histórica para o design e marcante no reencontro com uma utopia. 

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