Pequenos filmes de um cronista noturno

No primeiro álbum solo, o observador Tatá Aeroplano narra histórias pessoais e da cena paulistana

LAURO LISBOA GARCIA, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

28 de julho de 2012 | 03h11

Como artista múltiplo, líder das bandas Cérebro Eletrônico e Jumbo Elektro, DJ, frequentador de shows e colaborador musical de vários projetos, Tatá Aeroplano é personalidade de destaque na noite paulistana. Com seus inseparáveis chapéu e blazer, também virou símbolo de elegância entre seus pares. Cinéfilo, emotivo, tranquilo, bom observador, solitário e, talvez por isso mesmo, cativo de estranhos a seu imenso círculo de amizades, ele traz todas essas substâncias para o primeiro e estimulante álbum solo, que leva apenas seu nome.

Produzido de forma totalmente independente e com traço de colaboração coletiva entre amigos - como os produtores Dustan Gallas, Junior Boca, os parceiros cantores compositores Leo Cavalcanti, Bárbara Eugênia e Peri Pane, os músicos Maurício Fleury (Bixiga 70), Clayton Martin (Cidadão Instigado) e Bruno Buarque -, o álbum está disponível para download grátis no site www.tataaeroplano.com.br e à venda nas versões em CD e LP. Com os mesmos convidados, o show de lançamento será no dia 9 de agosto, no Sesc Vila Mariana.

"Antes de gravar o disco, a gente se encontrou muitas vezes, trocando ideias e ficando mais amigos. Quando fomos pro estúdio já tínhamos aquela vibe de banda que tenho com o Cérebro e o Jumbo. Foi um ganho pra todo mundo", diz o compositor. Nesses papos é que foi definida a sonoridade do disco, que tem uma pegada meio jovem guarda, pop retrô. "Dustan e Boca têm um vínculo com música mais 'antiga'. Tem muito deles no disco. Eles foram fundamentais na definição da sonoridade, nos arranjos adicionais." Dentro desse princípio de banda, com aprendizado mútuo, a linguagem musical de Tatá se sobressai e se firma bem característica.

Exalando espontaneidade e com narrativa cinematográfica, as canções são em boa parte confessionais, caso de Perigas Correr (que lembra um pouco Lucas Santtana), Um Tempo Pra Nós Dois e da linda e triste balada Te Desejo Mas Te Refuto, que assinala o fim de um relacionamento amoroso do qual ele foi protagonista. "Fiz essa canção um dia depois do que aconteceu aquilo que está dito ali. É difícil ouvir sem me emocionar. Choro toda vez que a toco." Antes dela vem outra das mais bonitas, Uma Janela Aberta, com letra do poeta arrudA e em duo vocal com Bárbara Eugênia, um iê-iê-iê romântico na linha de Roberto Carlos e Erasmo Carlos.

Duas das canções baseadas em cinema são as que abrem e fecham o álbum, Sartriana (parceria com Leo Cavalcanti) e Cão Sem Dono, mesmo título do filme de Beto Brant e Renato Ciasca, que a inspirou. Personagens da noite paulistana e da lendária Rua Augusta aparecem em narrativas cinematográficas, como Machismo às Avessas, Night Purpurina e a longa-metragem Par de Tapas Que Doeu em Mim, com mais de 10 minutos de duração. "Por ver muitos filmes, vou compondo sobre imagens, equilibrando cenas reais com fantasia", diz.

Em contraste com a atmosfera urbana e noturna das canções - tal qual Miranda Kassin na estreia solo -, as fotos do encarte foram feitas na Fazenda Serrinha. Gerado em São Paulo, Tatá nasceu em Bragança Paulista, onde fica a fazenda, e morou lá na pré-adolescência. Daí a dualidade entre o mato e o asfalto. "Gosto de ir lá para ouvir os pássaros, pescar sozinho, de forma bem rústica, colocar a minhoca no anzol, esperar pacientemente o peixe morder a isca", conta. Esse processo artesanal tem a ver com a feitura do disco, revelador e bem pintado autorretrato de um cronista em seu cenário noturno.

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