Pequenos entreatos

Marcelo Brennand faz boa estreia com o documentário Porta a Porta

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

03 de dezembro de 2011 | 03h07

É um sobrenome ilustre, Brennand, mas o parentesco de Marcelo com o ceramista, escultor, desenhista, pintor, tapeceiro, ilustrador e gravador Francisco Brennand é distante. Francisco é primo do avô de Marcelo Brennand. Nascido no Recife há 30 anos e há dez radicado em São Paulo, Marcelo estreia na direção com o documentário de longa-metragem Porta a Porta, em exibição na cidade desde ontem. No Rio, Porta a Porta estreia na próxima sexta e, no Recife, em janeiro de 2012, depois de ser apresentado numa mostra local, Expectativas, no dia 15.

Desde que se interessou pelo cinema, Marcelo imaginava projetos de ficção. Terminou estreando com um documentário e gostou tanto que promete - "Quero fazer minhas ficções, mas acho que vou permanecer documentarista para sempre." Porta a Porta trata da prática política no Brasil. É um bom filme e uma bela surpresa, considerando-se a pouca experiência do diretor. Marcelo Brennand é do ramo.

Seu interesse pela política nunca foi maior do que o de qualquer pessoa bem informado que acompanha pela imprensa o que andam fazendo, e prometendo, os políticos. Às vésperas da eleição municipal de 2008, Marcelo resolveu acompanhar o processo. Escolheu o local e o personagem. Gravatá, no interior de Pernambuco, é uma cidade pequena, mas um polo turístico. É muito procurada por sua temperatura agradável - friozinho no Nordeste - à noite. Gravatá tem 80 mil habitantes e mais da metade, 50 mil, são eleitores. Há muito desemprego na cidade, mas, na época da eleição, o dinheiro brota e 10% desse eleitorado - 5 mil pessoas! - é recrutado para empregos sazonais, participando da campanha dos candidatos.

Marcelo Brennand acompanha o candidato a vereador Fernando Resende. Fernando quem? Embora, até certo ponto, siga lições de João Moreira Salles em seu documentário Entreatos, sobre a campanha eleitoral de Luiz Inácio Lula da Silva, Marcelo queria filmar um político local, sem projeção nacional. Ele começou seguindo Resende com uma câmera pequena, não profissional. Mudou não apenas a parte técnica - câmera mais pesada, manipulada por um cinegrafista -, como mudou o próprio foco. O documentário sobre Resende virou sobre a forma como a eleição mobiliza e divide a cidade.

De repente, não é só o dinheirinho que estão ganhando. Os partidos nem são identificados - vira uma disputa entre vermelhos e azuis -, mas os cabos eleitorais começam a se empolgar. A disputa vira uma batalha épica, com seus personagens e também humor, drama. Brennand filmou cerca de 70 horas, que reduziu para hora e meia. Vale a pena participar, como espectador, desse embate.

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