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Ignácio de Loyola Brandão
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Pequena, aconchegante, enxuta, a FLI é delícia

Adoro, e o povo também, lendas que envolvem místicos, santos, ermitões, milagres, mistérios. Iguape tem sua dose. Em 1647, dois índios acharam uma imagem desconhecida rolando nas ondas e a levaram para a praia, onde cavaram um buraco e a colocaram em pé com o rosto para o nascente. Ao voltar, horas depois, acharam a imagem no mesmo lugar, com o rosto virado para o poente. A notícia se espalhou e a imagem foi levada para um riacho e banhada para ser retirado o sal marinho que se grudara a ela como uma casca. Repintada, foi entronizada na antiga Igreja de Nossa Senhora das Neves. É o Bom Jesus de Iguape.

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

15 de maio de 2015 | 02h06

Final da semana passada, entrei na igreja de Bom Jesus de Iguape - o centro histórico da cidade é simplesmente encantador - e vi o aviso de que em uma ala lateral havia uma exposição de Nossa Senhoras. Aquela sucessão de imagens me transportou para a infância, quando em Araraquara, minha mãe, Maria do Rosário, me levava para rezar diante do altar de Nossa Senhora do Rosário. Um dia, confuso com tantas Nossa Senhoras, a dos Remédios, a Imaculada Conceição, a de Aparecida, a do Carmo, a das Neves, a da Paz, a da Visitação, a das Três Espigas, a Desatadora dos Nós, e assim por diante, perguntei à minha mãe quantas existiam. E ela: uma só. Todas são uma única. Não entendi. E as ladainhas então? Virgem poderosa, virgem benigna, vulnerável, espiritual, casa do povo, arca da aliança, porta do céu, estrela da manhã, rainha dos mártires, e assim por diante.

Cada povo dá um nome de acordo com sua fé. Foi dona Angelina, mãe do Zé Celso Martinez Correa, esse mesmo do teatro Oficina, que um dia me disse haver nada menos de mil e cem designações diferentes para Nossa Senhora. Confesso que não entendi, mas era melhor ter muitas para pedir ajuda a várias e alguma se lembrar de mim. Depois, esqueci.

Naquele momento, em Iguape, uma hora antes de subir ao palco da Terceira FLI, Festa Literária de Iguape, caminhando entre tantas imagens feitas por um artista local, voltou um instante de minha vida em que eu tinha fé. Acreditava em futuro, mudanças no País, transformações na política, revoluções na sociedade, na arte. Naquele pequeno palco, diante de uma plateia que oscilou cada noite entre 300 e 400 pessoas, debaixo de uma tenda que parecia uma concha acolhedora, falaram Veronica Stigger e seu sorriso rasgado, contando experiências do ofício e interagindo com o público; Milton Hatoum nos fascinou revelando Graciliano Ramos em sua vida; Evandro Affonso Ferreira destilou cultura, rancor, ironia, humor, farpas, um personagem necessário, linha Plínio Marcos século 21; André Vianco trouxe sua paixão pelo fantástico; Frederico Barbosa destrinchou Gregório de Matos; Eduardo Bueno, conhecido pelos amigos como Peninha, terror dos historiadores com seu humor, deboche, desmitificação da história do Brasil, avaliou o célebre Bacharel de Cananeia; Rita Gullo cantou as histórias-memórias de meu livro Solidão no Fundo da Agulha. Jean Garfunkel trouxe poemas e canções; e Luis Melodia fechou a FLI no sábado.

Mas teve também oficinas com Liana Yuri, Antonio Lara, Julio Costa e Fernando Guiginski, Marco Aurélio Olímpio, a Banda Santa Cecília de Iguape, seguida por três palhaços e, finalmente, Fernando Nogueira ensinando a culinária no Vale do Ribeira. Programa enxuto, montado pela Poiesis, curtido por uma plateia que veio também de Ilha Comprida, Registro, Cananeia. Para mim, São Francisco Xavier, Pirenópolis, Votuporanga e Iguape conseguiram uma fórmula ideal em tempos de recessão, quando o último contemplado é a cultura (temos ministro?). A literatura e suas feiras me lembram aqueles cristãos do tempo dos Césares que se reuniam em grutas, cavernas, catacumbas para exercer sua fé. De cidade em cidade, variando as falas, as contações de histórias, as comidas, as muitas linguagens que abrigamos, estes escritores, músicos, teatrólogos, ensaístas, jornalistas, historiadores, poetas, os mais diferentes, caminham subterraneamente, formando leitores, defendendo a língua portuguesa dos códigos do twitter, das linguagens cifradas dos SMS, dos grafites, das letras do funk, dos Michels Telós.

Contam os que muito frequentam estas feiras, bienais, jornadas, que a hora do café da manhã no hotel, entre participantes, é especial. Há inclusive um autor famoso que ao sentar-se pergunta: "E de fulano? Todos gostam?". Se gostam, muda-se o nome. Quando todos afirmam odiar, o autor propõe: pois é dele que vamos falar mal. E vem pau!

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