Peppa Pig e o Estado de Bem-Estar Social

Na China, a porquinha foi tirada do ar por ser um 'ícone da juventude mal-educada'

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S.Paulo

19 Maio 2018 | 02h00

Uma das injustiças cometidas no aniversário de 200 anos de nascimento de Marx veio da revista The Economist: a de que filósofo errou, pois não previra o Estado de Bem-Estar Social, que poderíamos qualificar como uma resposta capitalista à utopia socialista.

Reino Unido, países nórdicos e do “commonwealth”, como Canadá, Nova Zelândia e Austrália, estabeleceram um regime que coloca o Estado como organizador da economia, democratizando os direitos sociais: saúde e educação gratuitas, renda mínima, pleno emprego com auxílio-desemprego. Programas habitacionais e aposentadoria digna.

A ação bem-sucedida nasceu depois de o continente europeu viver o horror de estados totalitários (fascismo, nazismo, stalinismo) e do fracasso da economia sem controle (crash de 1929).

Fruto do pensamento keynesiano, o Estado regularia toda a atividade econômica e social, para defender a população do inimigo externo, graças a um pacto social com sindicatos e organizações trabalhistas.

Estados democráticos e reinos se transformaram em oásis com qualidade de vida invejada por outros países. Era o que Leonel Brizola queria implantar no Brasil: O “socialismo moreno”. 

Porém, é uma injustiça desqualificar o marxismo. Primeiro, porque o pacto seguiu em frente graças aos trabalhadores anarquistas, socialistas e comunistas. Segundo, porque, ali vizinho, mordendo as canelas, estava o bloco comunista, vendendo a ideia de revolução, com tanques encostados na Cortina de Ferro.

No pós-guerra, nações capitalistas fronteiras com a URSS, Polônia, Alemanha Oriental, Hungria, Checoslováquia, Iugoslávia, Bulgária e Romênia, tiveram que maneirar a exploração do trabalhador e ampliar os direitos sociais. Para mostrar ao mundo que políticas sociais produtivas são possíveis em regimes não comunistas. E para impedir que o ideal leninista atravessasse as cancelas fronteiriças.

Sejamos justos: se não fossem os comunistas, e a pressão que exerciam sobre os Estados, não existiria o bem-estar social. E o que Peppa Pig tem a ver com isso?

Peppa era para mim, como para a maioria, uma desproporcional porquinha cor-de-rosa nariguda que ambulantes vendiam em faróis. Virou febre e preocupou os pais: será mais uma tentativa de lavagem cerebral e jogada de marketing sobre nossas crianças indefesas?

Estranha e anacrônica, pois o mundo do desenho animado estava animado com as experiências 3D introduzidas em 1995 pela Pixar (Toy Story) e Dreamworks, Peppa Pig é em 2D, e os personagens estão sempre de lado, como figuras egípcias.

Se você tem filho ou neto, e deu uma olhada no que assistem, percebeu que Peppa Pig é muito mais do que um desenho de sucesso mundial. Criado exatamente em 2004 no Reino do Bem-estar Social (RU), pelos experientes quadrinistas Phil Davies, Neville Astley e Mark Baker, é exibido em 180 países, inclusive no Brasil (começou a ser exibido pelo canal fechado Discovery Kids e atualmente está também na TV Cultura).

O que fascina em Peppa? É uma porquinha de uns 5 anos, que tem um irmão menor, George, de quem cuida, e a quem ensina e protege. Seus pais, como todos os pais da história, têm uma paciência de cão para ensinar e brincar com os filhos. Diferentemente de muitos de nós, que cedemos tablet e celulares, para não ter que ensinar nem brincar.

Em Peppa Pig, todos trabalham. Não existe patrão. Não existe relação de poder. Ninguém é subalterno. Todas as profissões são dignas, da motorista de van ao lixeiro. E os filhos de todos estudam na mesma escola. Mulheres podem trabalhar no que quiserem. Todos se ajudam, numa comunidade unida pela solidariedade.

Mamãe Coelha é motorista de ônibus, sorveteira junto com o marido, bibliotecária e também bombeira. Trabalha num desmanche, pilota guindastes e helicópteros, e gosta do que faz. Madame Gazela, a professora com sotaque francês de todas as crianças, é uma roqueira que já tocou numa banda. É sempre auxiliada por algum pai ou mãe.

As crianças aprendem francês, a reciclar lixo, a guardar resíduo orgânico para compostagem, a cuidar da natureza, a respeitar os mais velhos. Não existem inimigos, vilões. Nenhum gato sai caçando um rato. Não existe avareza: todos moram em casas parecidas e têm carro próprio.

Mamãe Pig também é bombeira voluntária. Vovô Pig os ensina a cuidar do jardim e a velejar. Doutor Elefante é o dentista da turma. Doutor Urso é o médico familiar. Um marceneiro é também taxista, enfermeiro e bombeiro, como Mr. Bull. Um policial pode ser o panda ou o esquilo. A rainha Elizabeth II aparece e os leva como uma cidadã comum para visitar Buckingham.

Toda a atenção dos adultos está nos livros, jornais, na educação, trabalho e nas crianças soltas nos parques. E se uma criança não tem um barco de brinquedo, como as outras, não tem problema: todos passam a brincar com barcos de papel-jornal feitos pelo Papai Pig.

Estranhamente, foi na China que Peppa Pig que, como em toda parte era muito popular, foi retirada do ar. A hashtag #PeppaPig, banida. O Diário do Povo, jornal do Partido Comunista, denunciou “efeitos perversos”, “comercialização”, “saciedade”, que causariam vício nas crianças.

A porquinha tornou-se, segundo o porta-voz do PC, “um ícone da subcultura de uma juventude mal-educada, sem trabalho e ociosa, que tomou um rumo subversivo que pode prejudicar o moral da sociedade”.

Como diria Caetano: “Não entenderam nada, nada!”. Faltou finalizar o comunicado com um “oinc, oinc.”

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