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Penúltimas palavras

Não deixe para a última hora a escolha de suas últimas palavras

Humberto Werneck, O Estado de S. Paulo

13 de junho de 2017 | 03h00

Já planejou o que dizer no minuto final – daqui a muitos e muitos anos, naturalmente? Por que deixar para a última hora?

*

“Estou ficando sem bateria”, avisará o José Roberto Toledo, “ligo depois”. 

“Zwitteriônico!”, bradará, qual esfinge, o imortal Antonio Carlos Secchin no instante em que deixar de o ser em carne e osso.

“Até logo”, vai se despedir o Ignácio de Loyola, “espero vocês lá!”.

“Eu não estou nem aí”, dirá o Sergio Sister, depondo os pincéis, mas pronto para o que pintar.

A Wanda Nestlehner vai querer um choro: “Não tem prorrogação?”.

O Marcelo Moutinho promete espernear: “Sempre fui contra conduções coercitivas”.

“Para, que eu quero descer antes do ponto final!”, ordenará o Claudio Cretti.

O cronista Guilherme Tauil tem instruções para a trilha sonora: Bolero de Ravel, nem pensar. 

“Agora são cinzas”, irá constatar a Maria Lucia Rangel.

“Espero que não exista vida após a morte”, fará votos o Marcelino Freire. 

“Verdade?”, perguntará o romancista de Mentiras, Felipe Franco Munhoz. “Quer dizer que agora o ponto final é pra valer?”

“Putz, vou furar na academia amanhã cedo”, vai lamentar o Ronaldo Bressane, desejoso de estar sarado.

“Já?”, haverá de estranhar a Nísia Werneck, mesmo que venha a ser chamada, como sua avó, aos 105 anos. 

“Morrer é como atravessar o oceano de navio”, irá comparar, no embarque, o Edmílson Caminha: “Não dá pra sair à noite”.

“Minhas últimas palavras?”, revela o Edesio Fernandes lá de Londres. “Espero que sejam meu motto de uma vida inteira: ‘Live and Let Live!’”

“Continuo sem entender”, haverá de tartamudear em oito sílabas poéticas o vate Fabrício Marques.

“Uê, mas já acabou?”, vai perguntar a Annamaria Marchesini, jornalista que encararia mais uma pauta.

“Tsk, eu não estava gostando mesmo”, desdenhará o ator Arildo de Barros ao sair de cena.

“Tô indo? Pra onde?”, indagará a festeira Nely Rosa, sem saber onde será sua balada póstuma.

“Espera, mãe!”, tentará negociar o Mario Viana. “Deixa eu ficar mais um pouco!”

O André Viana talvez reprise o bordão que usa para explicar aos filhos como o mundo funciona: “É tudo muito doido”.

“Já vou tarde”, vai admitir o Fernando Paiva. “Atrasado como sempre...”

“Tiradentes, Shakespeare, Napoleão, Montaigne, Chica da Silva...”, lamentará o repórter Marcos Caldeira Mendonça. “Os melhores entrevistáveis, com tempo de sobra, e eu indo sem gravador!” 

“Não errem meu nome na lápide”, pedirá o Jaime Prado Gouvêa, colecionador de versões estropiadas das três palavras com que figura no registro civil. 

“Me tragam mais uma Antarctica bem gelada”, comandará o Danilo Gomes, literalmente “a saideira, a morredeira!”. 

“Que saco! Não dava para me esperar dormir???”, resmungará em português a Denise Drumond de Caux, que poderia fazê-lo em seu impecável francês. 

“Nada tenho a acrescentar nem cortar”, vai avaliar o repórter Ricardo Kotscho no fechamento de sua derradeira edição. 

“No c..., pardal!”, dirá o Sérgio Augusto antes de bater asas. 

“Naquele minutinho final”, o Alberto Villas tentará “manter o humor e roubar uma frase” do seu, do nosso querido Millôr Fernandes: “O pior não é morrer. É não poder espantar as moscas”. 

A Suzana Verissimo imaginou dizer: “Acho que a ho-/” – e aí a frase engasgou. Meus Deus, o que houve, ela nunca foi de meias-palavras! “Foi só o computador q falhou...”, tranquiliza a superlativa amiga.

“Ora, Dona Morte, não venha a senhora me dizer que este deadline é inexorável…”, tentará negociar o jornalista Edison Veiga. “Vamos jogar o fechamento para amanhã?” 

“Bem que eu desconfiava...”, ruminará em voz alta o romancista Sérgio Fantini ante o inescapável unhappy end.

O escritor Marçal Aquino lamenta, mas nada poderá dizer: “Estou em trânsito neste momento”.

*

O cronista faz saber que ainda se encontram vagas as seguintes alternativas:

“Uma coisa que eu preciso te contar, querida(o). Sabe aquela(e) vizinha(o)?” – e não terá tempo para completar a confissão.

“Finalmente vou dormir o suficiente...” 

“Pra mim, morreu!” 

“Não está havendo um engano?”

“Não, obrigado, vou ficar mais um pouco.”

“Alguma coisa deu errado!”

“Há males que vêm para mal...”

“Posso reiniciar?”

“Fazendo logoff...”

“Deus, me adiciona!”

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