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Sérgio Augusto
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Pensando alto

Faz 30 anos que o professor Adauto Novaes, com a mesma regularidade com que Woody Allen produz e lança filmes, reúne intelectuais de peso, daqui e de fora, para refletir, sempre de forma original, sobre conceitos e questões do nosso tempo. De tão originais, oportunas e brilhantes, suas conferências, a princípio patrocinadas pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas da Funarte, ganharam prestígio internacional e ainda maior autonomia de voo depois de absorvidas pelo grupo Artepensamento, criado por Novaes. 

Sérgio Augusto, O Estado de S. Paulo

03 de setembro de 2016 | 04h45

Se o ciclo de palestras já tem três décadas, chegou a dez este ano a série que, sob a designação genérica de Mutações, vem propondo novas reflexões em cima de conceitos que, embora válidos, foram postos em xeque pela revolução tecnocientífica, biotecnológica e digital. Uma dupla celebração, portanto, há dias em curso no Rio (Biblioteca Nacional), São Paulo (Sesc) e mais três capitais, desta feita com o título de “Entre Dois Mundos – 30 Anos de Experiências do Pensamento”. Todos os temas abordados anteriormente – paixão, desejo, ética, civilização & barbárie, crise da razão, violência, homem & máquina, etc. – serão reexaminados à luz das mutações que só as mentes analógicas ainda não perceberam. 

“Ir ao impensado dos ciclos anteriores através dos vestígios de coisas já pensadas”, sintetiza Novaes o objetivo do curso deste ano. 

Sinto-me meio cúmplice (ou algo parecido) do projeto, pois cobri ou escrevi a respeito de todas as suas fases. A primeira série, “Os Sentidos da Paixão”, iniciada em 22 de setembro de 1986, no Palácio da Cultura, no Rio, e em seguida no auditório da Funarte, em São Paulo, já chegou abafando. Foi o evento cultural mais surpreendente da temporada, botou gente pelo ladrão, ganhou destaque no Jornal da Globo, mas nada disso convenceu o Ministério da Cultura a custear a vinda dos quatro bambas franceses (Jean-François Lyotard, Claude Lefort, Miguel Abensour e Nicole Loraux) almejados pela Funarte para reforçar o elenco nacional de conferencistas, por si só de primeira linha. 

Se não vejamos. Começo pelos cinco palestrantes que já não habitam este mundo: Hélio Pellegrino, Gérard Lebrun, Benedito Nunes, Paulo Leminski e José Américo Pessanha, este o melhor professor que eu tive na Faculdade Nacional de Filosofia. E prossigo com Marilena Chauí, Olgária Matos, Renato Janine Ribeiro, José Miguel Wisnik, Jorge Coli, Rodrigo Naves, Sérgio Paulo Rouanet e Maria Rita Kehl. Três deles (Chauí, Janine e Coli) fizeram duas conferências. 

Lembro-me de haver epigrafado a reportagem da abertura do ciclo com aquele trecho da canção As Time Goes By, “corações cheios de paixão, ciúme e ódio”, para de cara explicar a riqueza semântica da palavra paixão e todos aqueles outros sentimentos (medo, raiva, amizade, violência, ambição, avareza) que escapam ao controle da razão, sem contudo enaltecer um hipotético e utópico mundo governado pela razão. Muita coisa boa foi gerada pela paixão – ou por certas paixões – na esfera afetiva, política e até científica. 

Na filosofia e nas artes, nem se fala. De Platão a Walter Benjamin, de Arquimedes a Einstein, de Cristo a Lutero, de Édipo a Otelo, de Thomas Hobbes a Marx, de Freud a Guimarães Rosa, de Shakespeare (Romeu e Julieta) a Wagner (Tristão e Isolda), de Ulisses a Madame Butterfly, de Balzac e Stendhal a Pasolini e Visconti, de Rilke a Nietzsche, de Géricault e Delacroix a Pollock. Todos os mencionados, sem exceção, foram referências nas 22 aulas do curso inaugural, por sua vez inaugurado pelo professor e filósofo Gérard Lebrun, que então dava aulas na USP e estava prestes a trocar definitivamente a Pauliceia por Aix-en-Provence. Morreria 13 anos depois, em Paris.

Lebrun começou pelos dois pilares de seu mais apreciado campo de análise filosófica, Platão e Aristóteles, descartando, aristotelicamente, a paixão como vício ou virtude, “apenas uma emoção da alma” que nos impele a um prazer determinado ou nos faz fugir de uma determinada dor. Platão, ao contrário, patologizou-a. Não somos julgados bons ou maus em função de nossas paixões, mas pela maneira como as integramos em nosso comportamento, como resistimos aos seus empolgamentos e a deixamos determinar nossa conduta, sublinhou, didaticamente, o autor de Kant Sem Kantismo. 

Coube a Marilena Chauí encerrar o ciclo, 28 dias depois, discorrendo sobre o milenarismo na política, numa “abordagem impressionista”. Na palestra anterior, falara pela primeira vez de Spinoza, seu filósofo da cabeceira, com um bem disfarçado nervosismo, por ela própria confidenciado ao repórter e mitigado por um comprimido de Somalium. Fora estimulada a refletir sobre o milenarismo pela exploração sensacionalista que a mídia, sobretudo a TV, fizera do calvário do presidente eleito Tancredo Neves, no ano anterior. A morte de Tancredo adquiriu os contornos da morte de um messias, de um novo Cristo que traria aos brasileiros o maná da democracia e da abundância – não o governo de um vice como José Sarney. 

Heresia defendida por Joaquim de Flora (século 12) e outros ao longo da história do cristianismo, o milenarismo supunha o reinado terrestre de um líder, no caso, Cristo, que duraria mil anos, consoante a interpretação do Apocalipse de São João. Tal perspectiva fatalista, em priscas eras profetizada pelos egípcios, mesopotâmicos e outros povos, seria adotada até por Hitler. Lênin, salvo engano, não deu prazo para o reinado bolchevique. Do lado de cá do Atlântico, sua mais notável reencarnação se deu na revolta sertaneja do Contestado, no interior de Paraná e Santa Catarina, entre 1912 e 1918. 

Canudos? Chauí desistiu de cotejar as similaridades e dissemelhanças entre os messiânicos Antonio Conselheiro e João Maria, alegando não conhecer Canudos com a necessária profundidade. Na lista de filmes de que planejara extrair trechos para ilustrar seus exemplos de mediação messiânica e predições escatológicas – O Sétimo Selo, Excalibur e Dr. Fantástico – senti falta, especificamente, de A Guerra dos Pelados, de Silvio Back, e, genericamente, de Deus e Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, e sua profecia de que o sertão ia virar mar e o mar virar sertão. Como é sabido, e não fora previsto, Tancredo virou Sarney, mas Sarney não virou Tancredo.

Chauí foi aplaudida de pé. Fecho de ouro, com direito à leitura da sexta tese de Walter Benjamin sobre a História da Filosofia. Nem seus maiores entusiastas ousaram profetizar que o ciclo duraria 30 anos. 

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