Pensamento único

A vitória cada vez mais provável de Dilma Rousseff no primeiro turno das eleições presidenciais confirma a opinião de que o governo Lula foi tão mal elogiado quanto mal criticado. Confirma, mais ainda, a convergência estéril das correntes políticas do Brasil. O próprio PT, que antes criticava tanto o "pensamento único" e chamava o governo FHC de "neoliberal" (embora ninguém saiba de um governo neoliberal que tenha aumentado os impostos de 29% para 34% do PIB), hoje representa o pensamento único, como a aliança com o PMDB de José Sarney e Michel Temer não deixa duvidar. Os admiradores tratam isso como "amadurecimento" e os críticos preferem se concentrar nos comportamentos pessoais e/ou caprichar em previsões apocalípticas. O saldo é o mesmo pensamento único, ou melhor, a falta única de pensamento.

Daniel Piza, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2010 | 00h00

O fato central e cristalino é que o governo Lula tem a popularidade que tem porque não mudou a política econômica do antecessor, que tanto atacara, e ainda a melhorou em alguns aspectos, depois de ter aprendido suas lições. Seguiu com as metas de inflação, o câmbio flutuante e o superávit primário, dando ao Banco Central uma espécie de autonomia branca, sob direção de um ex-tucano, Henrique Meirelles, e dando muita alegria ao mercado financeiro, em especial aos grandes bancos e empresas. Fez uma política inédita de acúmulo de reservas financeiras, acima de US$ 250 bilhões, para ganhar a confiança do sistema internacional. E revigorou instituições como BNDES e Banco do Brasil, justamente para incentivar essas grandes companhias, privadas ou não.

Na política social, também partiu da base legada por oito anos de FHC e a ampliou. Fez o Bolsa Família, que custa apenas R$ 12 bilhões anuais aos cofres públicos, e institutos de pesquisa como o Ipea logo trataram de atribuir ao programa o motivo da aprovação de Lula, agora em 79%. Mas há motivos bem mais determinantes que o Bolsa Família, a começar pela política de crédito, que tanto estimulou o consumo (ou consumismo, para usar o termo preferido da velha esquerda "antiburguesa"). E a continuar por conjunturas que independem da vontade do governo, como o bom momento da economia mundial entre 2003 e 2008 e a tendência de ascensão dos emergentes, sob comando da China. O Brasil passou a crescer em média 5% (o deste ano, previsto para 7%, é atípico porque antecedido de um ano de recessão) e o desemprego caiu a 7%.

É na continuidade desses números que a população está votando. A simbologia de Lula como "um de nós que chegou lá", em vez de doutores e professores, ajuda bastante, mas de nada adiantaria se não fosse o sucesso econômico. Se tivessem honestidade intelectual, os membros do atual governo reconheceriam que o anterior preparou boa parte do terreno para esse sucesso, mas aí seria pedir demais. Dilma e os demais preferem dizer como estava a economia em 2002, com juros mais altos que nunca, e "esquecem" de informar que o motivo era a apreensão com a promessa petista de "romper com o modelo econômico". Lula não rompeu com modelo algum, assim como não investigou a corrupção que disse que investigaria. Sabiamente, delegou a economia e outras áreas a quem entende dos assuntos, e tratou de viajar Brasil adentro e mundo afora fazendo discursos.

Sob seu governo, a corrupção atingiu níveis altíssimos, mas, com o povo e o mercado satisfeitos e a oposição de rabo preso, a minoria que preza a ética seguiu bradando à toa na caatinga. É por isso que, eleitoralmente, não adianta o PSDB criticar a violação de dados de Eduardo Jorge e outros na Receita Federal. Eticamente, criticar esse absurdo é o que qualquer cidadão deveria fazer, contra qualquer partido que seja (e muitos grão-tucanos são conhecidos por suas fábricas particulares de dossiês políticos). No entanto, eis a cara do Brasil pós-Lula e pós-FHC: um Brasil mais rico na economia e mais pobre na política. Há quem diga que isso não é um problema, mas eles serão os primeiros a apontar os dedos acusatórios quando novas demandas vierem. Num país onde metade das pessoas não tem acesso a esgoto, vive na informalidade e tem péssimo nível de instrução, as acomodações podem durar menos a partir de agora. E o consenso mental tucano-lulista não resolverá os problemas.

Rodapé. Na próxima quarta-feira, dia 1.º, das 19 h às 22 h, na Livraria da Vila da Alameda Lorena, 1.731, em São Paulo, será lançado meu 17.º livro, Noites Urbanas (Bertrand Brasil, 176 págs., R$ 33). São contos que se passam em São Paulo, cidade que é uma cornucópia de histórias ainda por contar. Há um pouco de tudo, até suicídio e assassinato, mas a tônica é o constante dilema dos paulistanos em relação à sua cidade, que amam e odeiam ao mesmo tempo, e essa mesma tensão pode gerar tanto o conflito social como a intensidade criativa, tanto a melancolia como a vitalidade. Daí o motivo por que adotei o estilo indireto livre, que mescla a terceira pessoa com a primeira, e procurei sempre trabalhar com a concisão, com a maior economia possível de recursos, entre o realista e o sugestivo. Há dez contos longos, na maioria inéditos, e 18 dos minicontos que os leitores desta coluna já conhecem.

Há duas semanas, como faz sempre que um livro meu é lançado, a Folha publicou uma resenha negativa sobre Noites Urbanas, escrito por um professor da Unicamp, Alcir Pécora, conhecido por ser incapaz de elogio. Resenha, por assim dizer - é um apanhado de achismos, à base de clichês, com a pressa de quem não leu o livro com atenção. Ele acha meu estilo "sem graça", acha minhas tramas "previsíveis" e acha que meus personagens são "caricaturas da metrópole terceiro-mundista". Para tentar justificar, diz que o problema é que uso frases curtas e "filosofantes" (sic), o que por si só eliminaria dois terços da literatura já escrita no mundo... Sugere ter adivinhado o final de Golpe de Vista, mas não comenta sua ambivalência. E o que sabe o professor sobre a vida da metrópole terceiro-mundista? O mais divertido é quando diz que os textos não são "nem crônicas nem alegorias". Talvez porque sejam... contos?

O que mais me motivou foi o desafio técnico, aquele que só conhece a fundo quem pratica. Por mais que em alguns casos a história tenha sido baseada em fatos que testemunhei, o teor autobiográfico não tem quase importância. Criei situações e personagens que ganharam autonomia, muito além da vaga ideia inicial da qual nasceram, e eu mesmo me surpreendi às vezes com os tipos de cenas e detalhes que foram aparecendo. Na contracapa, a editora estampou um trecho de Saquê, sobre o amor de um adolescente por uma nissei, Nara:

"Ela atendia a todos os seus desejos e ordens, mesmo sem poder distinguir uns e outras, e se submetia a esses caprichos porque pareciam pouco numerosos em contraste com suas declarações, gentilezas e sacrifícios. Um dia, enquanto prendia mais uma vez o cabelo em coque com um par de palitos vermelhos, a seu pedido, se deu conta de que Alberto não estava olhando para ela, mas para o que queria ver. Ele amava mais o Japão que ela involuntariamente representava do que ela própria; amava a fuga, não o fato."

Cadernos do cinema. Quem não pode reclamar muito do cinema atual são as crianças. Vi com meus filhos desde as férias Shrek para Sempre, final inferior mas digno de uma série muito divertida, Toy Story 3, mais um show de criatividade da Pixar, e Meu Malvado Favorito, bobo para os adultos, mas cheio de imaginação também; meus filhos viram ainda O Pequeno Nicolau, com a história do menino que todo estudante inicial de francês conhece. O que sobressai na safra, ao contrário dos adultos, é que os filmes não ficam em fórmulas e, ao mesmo tempo, não querem ser mais do que são.

De la musique. Ivan Lins e Milton Nascimento foram alguns dos nomes citados por leitores para tentar contrapor o que escrevi sobre a perda de prestígio da MPB. Eu havia citado o encontro de 1967 entre Jobim e Sinatra, cujo disco mais completo, de 1979, acaba de ser relançado pela Reprise, e dos contemporâneos dei o exemplo menor de Chico Buarque sendo gravado aqui e ali, como por Stacey Kent e Brad Mehldau. Bem, os exemplos de Ivan e Milton, ou de João Donato e outros mais, também não se comparam em termos de prestígio - e não de retorno financeiro - ao de Jobim e Sinatra, ou seja, o maior cantor do mundo em atividade gravando um CD dedicado exclusivamente a um compositor brasileiro. E mesmo as canções de Ivan e Milton que aparecem em coletâneas estrangeiras foram compostas nos anos 70 e 80. Nas duas últimas décadas, não dá para negar que a MPB deixou esse patamar tão admirável.

Por que não me ufano. Vendo o trânsito de São Paulo, cada vez mais dominado por carros que parecem tanques, de tão grandes e agressivos (e com insulfilmes nas janelas que obstruem a visão dos outros motoristas), e por motoboys, que morrem à média de dois por dia, e ouvindo as notícias de assaltos a mão armada em avenidas como a Pacaembu e a Marginal Tietê, penso de novo em como é errado que as eleições para governadores sejam feitas no mesmo dia que as presidenciais. Os debates locais ficam em segundo plano; só se fala de questões federais, quando assuntos como segurança, metrô e educação - educação que tem problemas gravíssimos em São Paulo - são atributos que pesam muito mais nas administrações estaduais. Eleição para governador deveria ser junto com a eleição para prefeito.

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