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Pensamento cetáceo

Efeito cetáceo seria o costume de voltar a um foco já largado em oceano passado, assim como uma baleia que, após longo mergulho, se ergue imperial em busca de ar

Leandro Karnal, O Estado de S. Paulo

10 de abril de 2019 | 02h00

Convivendo muito com minha orientadora de doutorado na USP, criei a expressão “pensamento cetáceo”. Se a querida leitora e o estimado leitor tiverem um pouco de paciência, creio ter identificado uma tribo específica da espécie humana que pode conter gente da sua família em seu seio. 

Eu falava da professora titular Janice Theodoro. Ela pensa muito, discute ideias com habilidade e colaborou imensamente para questionar minhas zonas de conforto. O rico universo interior (somado à tradição psicanalítica) fazia com que ela debatesse um tema denso com maestria e leveza em um jantar. Com o andar da carruagem gastronômica, íamos vendo diversos tópicos. Havia em Janice um universo interior distinto: ela continuava pensando na conversa que a movera naquele dia, mesmo horas depois do assunto, aparentemente, ter se extinguido. Exemplo prático: falávamos no conceito de barroco colonial mexicano, chegávamos à obra de Heinrich Wölfflin e à desconstrução de alguns pressupostos de Jacob Burckhardt e, com alguma probabilidade, terminaríamos pensando no vinho a nossa frente. Porém, pasmem queridas leitoras e estimados leitores: Janice prosseguia internamente no conceito de barroco enquanto o assunto já se transformara em vinho, comida ou outra amenidade. Em alguma sala do Palácio da Memória, o conceito ainda pulsava, fluía e, sem aviso prévio, voltava como um gêiser inesperado. Eu estava pegando o carro e ela soltava frase forte e com ênfase gestual: “A Capela do Rosário em Puebla!”. O que a belíssima peça do barroco colonial mexicano poderia iluminar o momento com o manobrista? Nada, aparentemente, se eu pensasse na minha tradição linear cartesiana e na minha noção agostiniana de tempo. Porém, o primeiro debate da noite tinha voltado à tona de forma abrupta, como uma baleia que, após longo mergulho, se ergue imperial em busca de ar, alçando seu corpanzil ao sol, acima das águas, para, em seguida, cair estrondosa na água cristalina. Eis a descrição do meu conceito: “Pensamento cetáceo”. 

As baleias são mamíferos que podem mergulhar a profundidades abissais. Porém, o apelo da respiração acaba chegando. Como os golfinhos, podem morrer afogadas nas águas em que nasceram. Boas nadadoras e exímias mergulhadoras, porém, continuam mamíferas e dependentes dos pulmões. Na superfície, só as vemos quando respiram. A superfície é a conversa audível. Ali, estamos nos vendo, baleias, golfinhos, navegadores e flutuadores em geral. O tema submerge na vastidão dos oceanos. Em graciosos movimentos ondulatórios, o tópico volta mais adiante, quando, para quem está na superfície, ninguém mais pensa nele. Efeito cetáceo seria o costume de voltar a um foco já largado em oceano passado e sem nenhuma introdução. 

Defendo o grupo de animais marinhos que englobei no título da crônica. Vivem, como Janice, imersos em solilóquios. Os cetáceos costumam pertencer a uma família expressiva marcada pela inteligência e um diálogo consigo muito forte. Não se confundem com os meros distraídos ou com os indivíduos fechados em sua casmurrice. O cetáceo clássico é dotado de uma imensa lógica narrativa. Ele pode ser uma dificuldade para o resto do mundo porque não exibe todo o fio narrativo e apenas surge, quase uma epifania, com uma nova conclusão e, depois, volta ao mundo hídrico invisível. 

O pensamento cetáceo parece indicar uma capacidade de autocentramento muito sólida. Seriam partes soltas de uma corrente: algo pode ser engatado ali, mas não é da natureza do elo estar associado. Imagino que a sociabilidade mais vaga ou superficial seja um sofrimento. 

Aprendi muito com Janice e declaro, com plena consciência de verdade, ser um devedor intelectual eterno. Nem sempre consegui seguir o canto profundo quando o corpo desaparecia das marolas oxigenadas da casca do mundo. Percebendo apenas os espasmos espaçados e recortados do mundo dos vivos não aquáticos, não identificava a linearidade humanística de tudo que era enunciado. Talvez seja o erro de comunicação mais comum: eu interpreto que o total do dito coincide com o total do pensado e que a palavra enunciada seja o único e derradeiro significado do significante. 

Viver tende a diminuir nosso olhar duro e vaidoso. Quando encontrei pela primeira vez minha futura orientadora, em 1987, eu era mais preocupado com o rigor da tradução de um termo teológico do que capaz de admirar a sutileza cetácea. Aprendi tanto, especialmente sobre comunicação e a diferença entre saber dados e interpretar culturas. A passagem da erudição ao conhecimento necessita de um passaporte especial. O papel de formador é mais sofisticado do que o de informador. Há uma boa tradição acadêmica de conversas, debates, de ouvir e de falar que constitui uma riqueza insubstituível. Janice, até hoje, reclama do declínio do que ela, com razão, chama de filia acadêmica. Tive esse privilégio em salas da USP, na casa dela, em pizzarias e em viagens. Crescia, inclusive, quando tocávamos Summertime (G. Gershwin), eu ao piano e ela ao contrabaixo, em memoráveis noites na Rua Joaquim Antunes. Minha formação clássica esbarrava na “blue note” do balanço do jazz. Trinta anos depois, tropeço ainda, mas agora sei que Bach é uma pedra na estrada da vida e não o universo. Talvez seja isso que uma boa pós-graduação possa nos trazer: amplitude, diversidade, questionamento e descoberta de outras alvenarias. Agradeço sempre aos cetáceos em geral e à Janice em particular. É preciso ter esperança. 

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