Pensador do Brasil

Documentário, CD e novos shows iluminam vida e obra de Jorge Mautner - e seu projeto de um País feito de misturas

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

12 de maio de 2012 | 03h09

Foram cinco anos, consumidos entre pesquisa e preparação. Como havia pouco dinheiro para fazer O Filho do Holocausto, seu admirável documentário sobre Jorge Mautner, os diretores Pedro Bial e Heitor D'Alincourt prepararam a produção nos mínimos detalhes. Para garantir a melhor qualidade de imagem e som, filmaram num estúdio. Para reduzir os custos, concentraram tudo - as entrevistas e apresentações musicais - em quatro dias.

Havia gente dançando no final da sessão do filme, no Cine PE. "Aquilo foi bonito, não é?", observa o próprio Mautner. O júri presidido por João Batista de Andrade ignorou os documentários e despejou seus prêmios nas ficções. O Filho do Holocausto foi lembrado por meio de uma menção - a Jorge Mautner, não aos diretores. "Deixei tudo na mão deles, da seleção das músicas aos textos e entrevistas", diz o artista, multimídia como poucos no País.

O Filho do Holocausto saiu do Recife e já começa a ganhar uma vida internacional. Na terça, será exibido no Festival do Cinema Brasileiro de Paris, no Nouveau Latina, um cineminha de arte do Marais, no qual os documentários musicais viram sempre festas. Ex-sogro de Bial, Cacá Diegues deu uma definição que agradou ao ex-genro: "É um documentário com desejo de ficção".

Nos últimos anos, Bial virou o sr. BBB, sempre convidando o público a dar "uma espiadinha" na casa que abriga o reality show. Os críticos o converteram em saco de pancada, de ódio do programa. O BBB surpreende o próprio Bial. "É o único País do mundo em que a 13ª edição teve mais audiência que a primeira", observa. No cinema, ele havia feito Outras Histórias, baseado em Guimarães Rosa. O autor de Grande Sertão: Veredas tinha um projeto de nação, Jorge Mautner tem outro, baseado no amálgama. O Brasil mestiço é um exemplo de integração social para o mundo. "Ou o mundo todo se abrasileira ou a coisa vira nazista", diz Jorge.

Mesmo que sua visão de Brasil e de mundo não seja a mesma dos artistas que o inspiram, Bial é suficientemente fascinado por eles para fazer todos esses filmes e se manter no BBB. Ele não se envergonha, tem o maior orgulho do programa. O Brasil pode não se refletir nos personagens do BBB, mas se reflete na forma como os vê. Um documentário autoral, um CD e a volta do filme mítico que fez em Londres, O Demiurgo. O Filho do Holocausto inicia o resgate de Mautner como pensador do Brasil.

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