Penguin nasceu para democratizar leitura de obras-primas

Allen Lane decidiu criar editora quando percebeu que não havia bons livros à venda em estações de trem

Ubiratan Brasil, de O Estado de S. Paulo,

10 de setembro de 2009 | 10h19

A chegada da Penguin Classics abre, no Brasil, uma nova fronteira no mercado de textos considerados indispensáveis. Todos já foram alguma vez traduzidos para o português - como O Príncipe, de Maquiavel -, mas raros trazem um aparato complementar, como introdução ou posfácio, digno de nota, capaz de contextualizar devidamente a obra em seu tempo.

 

A coleção surgiu a partir de um acaso, o que também marcou o nascimento da Penguin - em 1935, depois de passar um fim de semana em visita a Agatha Christie no interior da Inglaterra, o jovem editor Allen Lane percebeu que não havia nenhum livro interessante à venda na estação de trem, alguma obra que o entretece na viagem de retorno a Londres. Foi quando lhe surgiu a ideia de tornar disponíveis boas obras de ficção contemporânea a preços convidativos. Empolgado, Lane foi além: as obras não deveriam ser encontradas apenas nas tradicionais livrarias - onde se vendiam quase exclusivamente livros em capa dura -,mas também em estações ferroviárias, tabacarias e cadeias de lojas.

 

Naquele mesmo ano de 1935 surgiram os primeiros livros com a hoje tradicional figura do pinguim (ideia de uma secretária, que via no animal um símbolo de nobreza e também irreverência) - Ernest Hemingway, André Maurois e a própria Agatha Christie estampavam brochuras cujo preço equivalia, como Lane gostava de enfatizar, ao de um maço de cigarros.

 

Já o selo Penguin Classics surgiu em 1946, logo depois da 2ª Guerra Mundial. E, novamente, foi fruto da intuição mercadológica de Lane. Se o violento conflito já limitara a divulgação da literatura, especialmente em território europeu, a leitura de obras clássicas ainda era mais escassa, uma vez que seu acesso estava restrito basicamente aos meios acadêmicos, sem que houvesse, com raras e passageiras exceções, edições bem-feitas para o grande público.

 

Lane não apenas enveredou por um campo que poucos considerariam fértil como, audacioso, propôs uma grande aposta como início da coleção: a tradução da Odisseia, de Homero. E não uma versão comum, mas a preparada pelo então pouco conhecido classicista e editor E. V. Rieu. Ele iniciou o trabalho em 1936, quando Hitler preparava seus canhões para dominar o mundo, e só conseguiu concluí-lo ao som dos bombardeios da guerra, em 1944, um ano antes do final do conflito.

 

A tradução da obra de Homero tornou-se o livro mais vendido da editora, com cerca de 3 milhões de exemplares, até ser superado quinze anos depois por O Amante de Lady Chatterley (nova ousadia de Lane), de D. H. Lawrence, e, posteriormente, por A Revolução dos Bichos, de George Orwell.

 

O segredo estava na linha mestra proposta por Rieu, convidado a dirigir a coleção de clássicos: novas versões de grandes obras realizadas não apenas por tradutores tecnicamente capacitados mas também por escritores que não se intimidavam com o idioma original, o que resultava em textos de alta qualidade e agradável leitura. É essa delicatessen que agora também vai ser oferecida em português ao leitor brasileiro.

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