Pelourinho, Ilhéus, o luto da Bahia

O tradicional clima festeiro do Pelourinho foi substituído ontem, pela consternação devido à morte de um dos seus mais famosos freqüentadores, o escritor Jorge Amado. "É triste estar aqui justamente nesse momento", disse o turista paulista Antonio Amaral que circulava com amigos pela Ladeira do Pelourinho na manhã de sol forte da capital baiana. O sobradão azul, situado na parte de cima da Ladeira do Pelourinho, onde está instalada a Fundação Casa de Jorge Amado, um dos pontos tradicionais do Centro Histórico estava fechado ontem. Lá estão cerca de 200 mil documentos, entre livros publicados em vários idiomas, objetos, fotos e recortes, onde as novas gerações poderão conhecer a obra do escritor. Os funcionários da fundação foram prestar as últimas homenagens a Amado no Palácio da Aclamação local do velório do corpo do escritor. Lá se juntaram aos inúmeros amigos do escritor. "Um homem desses de cem em cem anos aparece e olhe lá", disse o artísta plástico Sante Scaldaferri. A atriz Nilda Spencer, que participou de vários filmes sobre os livros do escritor, lembrava que a maior alegria de Amado era saber que seus amigos haviam sido convidados para trabalhar nas fitas. "Isso é uma prova de sua generosidade", disse. A companheira de 50 anos, Zélia Gattai, emocionada, fez questão de contar que Amado repetia sempre que não queria ser sepultado. "Não me bote em cemitério, tenho horror a cemitério, quero ficar embaixo da mangueira que plantei", disse Zélia lembrando as palavras do marido. Paloma, filha do escritor salientou que o pai era a pessoa mais simples do mundo. "Ele nos criou dessa forma e por isso eu e o meu irmão João Jorge somos privilegiados". Na cidade de Ilhéus, cenário de vários romances do escritor, o clima também foi de luto ontem. Uma tarja negra foi colocada na fachada do Bar Vesúvio, ponto de encontro dos personagens do livro Gabriela Cravo e Canela. O prefeito Jabes Ribeiro do Ilhéus decretou luto oficial de oito dias em homenagem ao escritor. O amigo Raimundo Sá Barreto, usado por Amado para criar alguns dos "coronéis" do cacau, estava consternado. "Há dois meses falei com ele por telefone e ele disse que queria me ver para conversarmos", disse, O luto atingiu também os terreiros de candomblé que respeitavam e cultuavam Amado pela sua defesa intransigente ao culto afro. O Ilê Axé Apo Afonjá, de Mãe Stella de Oxóssi, suspendeu seus trabalhos por três dias. Além da grande amizade entre Mãe Stella e Amado, o escritor era obá arorô da casa, uma espécie de porta-voz do orixá Xangô. O título foi dado por Mãe Aninha, uma das antigas mães de santo do terreiro.

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