Pelotão feminino ENTREVISTA

A israelense Shani Boianjiu oferece um retrato fiel do cotidiano das jovens militares

UBIRATAN BRASIL, O Estado de S.Paulo

11 de maio de 2013 | 02h08

Quando completou 18 anos, a adolescente Shani Boianjiu iniciou, como a maioria de seus conterrâneos israelenses, o serviço militar obrigatório. Foram dois anos de treinamentos na fronteira de seu país, que se dividiram entre o tédio e o temor da deflagração de um conflito com os palestinos. A experiência inspirou a escrita de seu primeiro romance, O Povo Eterno Não Tem Medo, efusivamente elogiado e premiado, além de traduzido em 22 línguas - no Brasil, chega agora a versão pela Alfaguara.

Suas impressões se dividem entre três personagens, três amigas: Yael, Avishag e Lea, que crescem juntas em um vilarejo israelense na Galileia, próximo da fronteira do Líbano, onde enfrentam a pasmaceira e as crises do cotidiano, marcadas pelas precariedades de se viver no deserto. E, acima disso, paira ainda a tensão da guerra contra o país vizinho.

Convocadas pelo exército, as amigas descobrem novas fronteiras, tanto a que marca o amadurecimento como a que separa as nações. Yael torna-se instrutora de tiro e flerta com rapazes. Avishag passa horas sentada diante de monitores de vigilância, onde assiste, impotente, à morte de refugiados sudaneses. Já Lea, em um posto de controle, cria histórias imaginárias por trás dos rostos de palestinos que passam por ela todos os dias. "Mas não me escondo por trás de nenhuma delas", garante Shani, agora com 25 anos, em entrevista por e-mail ao Estado.

Antes de seu lançamento, a obra já provocava alvoroço graças aos textos que Shani publicou no formato de contos em revistas de prestígio como The New Yorker e a Zoetrope: All Story, editada por Francis Ford Coppola.

Apesar do tema belicoso, o livro não assume convicções políticas, o que provocou discussões - em conversa com o jornal americano New York Times, Shani reclamou: "Fui acusada tanto de ser porta-voz das Forças de Defesa quanto de ser antissionista", disse.

Muita gente passa pelas

fronteiras israelenses, mas não se preocupa com os soldados que as vigiam constantemente. Foi este detalhe que a

estimulou a escrever o livro?

O importante para mim foi escrever sobre personagens que fazem parte da minha vida, mas que ainda não vi representados em obras de ficção. Sempre gostei de ler livros e para mim transpor para a ficção certos personagens e descrevê-los com palavras foi um jeito peculiar de fazer com que algumas delas se tornassem reais como, na minha opinião, não aconteceu antes. Quis refletir um pouco mais sobre as pessoas pelas quais muitos de nós passam comumente sem prestar muita atenção, e descrevê-las com palavras foi uma maneira de fazer com que outras pessoas também refletissem sobre elas.

Qual foi a pior experiência

que você vivenciou durante o

serviço militar? Por que?

Não sei se houve uma experiência pior, mas o meu segundo verão no Exército, quando eclodiu a segunda Guerra do Líbano, foi certamente uma das épocas mais difíceis, porque nem eu nem muitos outros imaginavam que estouraria repentinamente uma guerra e com tamanha violência.

Em qual das três jovens

(Yael, Avishag e Lea) você

se "esconde"?

Não me escondo em nenhum destes personagens. A tarefa de Yael no Exército se parece mais com a minha, embora ela não se identifique comigo, e suas histórias não sejam as minhas. Diria que eu me pareço mais com Lea e Yael do que com Avishag, que é uma pessoa tranquila, reservada, e eu certamente não sou tranquila nem reservada. Procurei explorar profundamente muitas coisas sobre as quais eu vinha pensando, permitindo que cada um destes personagens as pensassem e descobrindo as conclusões a que elas chegaram.

Além das situações dramáticas, houve alguns momentos de humor inesperado no Exército?

Sim. O período que passei no serviço militar foi provavelmente um dos mais divertidos da minha vida. Em geral, acho que a ideia de dar a adolescentes armas, funções e responsabilidades, obrigando-os a trabalhar em uma velha burocracia hierárquica, se presta a muito humor. Todos os dias acontecia algo ou eu ouvia frases que me levavam a pensar que só poderia ser brincadeira.

Qual é o papel da literatura

neste contexto, quero dizer,

na zona de ocupação?

Não acredito que a literatura tenha um papel diferente em diferentes partes do mundo. O objetivo da literatura é sempre contar histórias - histórias que o maior número possível de pessoas lembrarão e sobre as quais refletirão sempre.

Você acha que compreender

o conflito entre israelenses e

palestinos exige um

envolvimento, ou seja, que você precisa assumir o ponto de vista emocional dos dois povos?

Não sei. O que sei é que é impossível afirmarmos que compreendemos o conflito enquanto consideramos os palestinos ou os israelenses como algo mais do que pessoas ou seres humanos comuns. Sempre que pretendemos compreender o conflito partindo do pressuposto de que é o resultado de uma falha de caráter de um dos dois povos e não de circunstâncias muito complexas às quais pessoas de outros países talvez não reagissem de maneira muito melhor, eu sei que é um erro.

Você pretende continuar

escrevendo sobre este tema? Você quer seguir uma forma

literária semelhante, digamos,

à de David Grossman?

Não tenho certeza. Não acho que no futuro escreverei sobre o exército israelense, mas isto não significa que eu não vá tratar de temas muito semelhantes, mesmo que sua ambientação seja bastante diferente. Não consigo escrever sobre algo a não ser que esteja obcecada sobre aquele tema de uma maneira mórbida, portanto, não creio que teria condições de escolher uma "forma literária".

SHANI BOIANJIU

ESCRITORA ISRAELENSE

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