Pelos poderes do humor inteligente

Em outubro de 2008, a pré-estreia de Todo Mundo Tem Problemas Sexuais, comédia de Domingos Oliveira, no Festival do Rio, foi marcada pelo discurso antipornografia no cinema e na TV lido por Pedro Cardoso, produtor e figura central do filme, no palco do cinema Odeon. Pega de surpresa, a plateia se dividiu entre os que tacharam Pedro de moralista (a maioria) e os que louvaram sua eloquência e lucidez.

Roberta Pennafort / RIO, O Estado de S.Paulo

17 de maio de 2011 | 00h00

O debate prosseguiu na imprensa e na internet. E nada de chegar a estreia dessa adaptação da super bem-sucedida peça homônima, escrita por Domingos em parceria com o psicanalista Alberto Goldin. Vencidas as dificuldades financeiras que emperraram sua finalização, entrou finalmente em cartaz na sexta. É a vez de o filme - que trata de percalços passados na cama sem ter ator algum sem roupa - dizer a que veio.

"Já nos primeiros ensaios eu sugeri ao Domingos: "não pode ter nudez, senão não vai ter graça". A nudez interrompe a história, iria quebrar o raciocínio, e o humor é produto do raciocínio", explica Pedro. Ele chegou a escrever 200 páginas sobre o assunto (veja no blog www.todomundotemproblemassexuais.zip.net, ainda no ar). "Até hoje, ninguém disse nada que eu pudesse considerar, do ponto de vista intelectual, sobre o que eu coloquei."

Pedro conta que o filme, exemplo do cinema que ele considera "igual ao Brasil do ponto de vista tecnológico", custou contidos R$ 500 mil. "Não vejo como o País pode ter uma arte de acabamento de Primeiro Mundo se a vida da sociedade é de precariedade", acredita.

Deficiências técnicas acabam superadas pelos diálogos inspirados e atuações certeiras - a de Pedro é infalível. De cara, o espectador recebe o aviso de Domingos, dramaturgo/roteirista/diretor: "Não queremos negar ao filme sua origem teatral, queremos emprestar ao cinema certos poderes que o teatro tem, por ser mais velho".

O elenco, que se reveza nas histórias de amor, desejo e perversão - além de Pedro, Cláudia Abreu, Priscilla Rozenbaum, Paloma Riani, Orã Figueiredo e Ricardo Kosovski, parte da turma de Domingos - está ora em cena num teatro desativado no Rio, o histórico Dulcina, ora vivendo os episódios nas locações em que se passam.

Foram muitos palcos nos sete anos (com interrupções) nos quais Todo Mundo Tem Problemas Sexuais foi apresentado. A peça começou num teatro de cem lugares e logo passou para a casa de espetáculos hoje chamada Citibank Hall, onde cabem quatro mil, tamanho o sucesso.

O riso vem das situações por vezes inverossímeis, mas tiradas de histórias reais mandadas sob pseudônimos a Goldin, colunista do jornal O Globo, e do texto coloquial de Domingos. Uma mulher descobre que o amante precisa de Viagra ("o Gatorade de p...") para ter ereção, um casal aparentemente certinho passa a ter prazer com outros parceiros, um funcionário de farmácia tarado pela colega usa de artimanhas para ganhá-la, etc.

De repouso por causa de uma erisipela, infecção na pele causada por uma bactéria, que interrompeu a turnê de sua última peça, Domingos torce de casa para que o desvio de atenção do filme para o discurso de Pedro agora se reverta. "O filme fala por si mesmo. Pedro Cardoso é um homem muito interessante, um gênio, talvez seja o melhor ator brasileiro. E o filme é um escândalo, um escândalo de sinceridade, como diz o subtítulo. Só não sei se é cabeça demais..."

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