Epitácio Pessoa/ Estadão
Epitácio Pessoa/ Estadão

Pelos poderes de Hercules

Seria apenas caso de superação se não fosse um detalhe: Hercules Gomes toca demais

Julio Maria , O Estado de S.Paulo

09 Agosto 2013 | 02h19

Assim que viu o filho único pela primeira vez no palco de um grande teatro, sozinho, à frente do piano, Dona Teresa assistiu a um filme da própria vida. Seu garoto estava lá, justificando o nome de alguém que poderia derrotar até os leões. Hercules deixava a plateia em silêncio com uma técnica que o permitia tocar forte sem fazer força, uma habilidade que deixava suas mãos levitarem sobre as teclas mesmo nos maiores arroubos emocionais.

Teresa viu primeiro sua criança crescendo na periferia de Vitória, Espírito Santo. Não havia sido fácil criá-la com o salário de costureira somado ao de pintor de carros do pai. Viu o menino saindo de casa, decidido a estudar música em São Paulo, e recordou os dias em que ele passara a viver em uma república de universidade só com os R$ 150 por mês que ela mandava. Hercules era o homenageado da noite. Sua presença era de honra, um recital na final de um concurso de instrumentistas, em Indaiatuba, no interior de São Paulo, feito pelo jovem que havia vencido o mesmo festival um ano antes.

Ao narrar suas lembranças ao Estado, Hercules Gomes para quando fala da mãe. Cai em um choro incontrolável e pede desculpas. "Só ela sabe sobre cada um dos dias que vivi até aqui." Um rapaz de origem humilde, vencendo batalhas à frente de um piano, poderia ser exemplo de superação em busca de complacência não fosse um detalhe: Hercules é um ás, algo especial, resultante da fórmula técnica elevada à décima potência da emoção que independe da cor de sua pele. Depois de inspirar-se com a ideia que lhe vem à mente, talha e escreve cada nota em um processo de sangue, suor e repetições. Mesmo os solos que parecem improvisos são cuidadosamente definidos. Sua música, contudo, se comunica fácil e flui sem pedantismo.

Seu primeiro disco sai de um esforço quase solitário. Intitulado Pianismo, existe em parte graças ao programa de subsídio cultural do governo estadual, o Proac, que lhe destinou R$ 20 mil depois de aprovar seu projeto. "Mas tive de colocar dinheiro também", diz, sem especificar valores. É a primeira vez que reúne temas próprios em uma investida solo, depois de participar de formações em grupo. Hoje ele se apresenta na Universidade Estadual de Campinas, às 12h, e amanhã faz recital em uma loja de pianos, no Jabaquara (Av. Jabaquara, 162, 5572-9602). Basta um instrumento disponível para tê-lo como atração. Sua agenda peculiar inclui o Hospital Santa Catarina, o Conservatório de Tatuí e o Museu da Casa Brasileira.

Hercules carregou muito piano antes de sentar-se em um. Ao decidir prestar vestibular para cursar música na Unicamp, percebeu que não sabia 30% do que deveria saber. As greves do ensino em Vitória o fizeram sair do colégio sem preparo para encarar a concorrência. Para dar dois passos à frente, então, decidiu dar um atrás e deixou as partituras para estudar Física, Matemática e Língua Portuguesa o dia todo, todos os dias. Conseguiu uma das vagas e se mandou de Vitória para São Paulo, pronto para viver com R$ 150 que a mãe lhe mandava do Espírito Santo, mais R$ 35 de uma bolsa transporte e dos almoços de um bandejão. Chegava mais cedo e saía mais tarde das aulas para poder usar o piano da universidade, já que o instrumento de seu quarto atrapalhava o sono dos parceiros de república.

O sacrifício começou a fazer sentido quando Hercules caiu na sala do professor Silvio Barone. Silvio passou a doutrinar seu aluno, fazendo-o ouvir os grandes mestres. "Eu não acreditava que a mão humana fosse capaz de fazer aquilo", lembra Hercules. Oito meses depois, perderia o mestre e a vontade de ser pianista. Ao fazer uma prova aplicada aos professores para efetivá-los, Silvio fora reprovado. Indignados, Hercules e outros alunos compraram 100 metros de tecido preto e cobriram a fachada do prédio do Instituto de Artes da Unicamp, como protesto pela dispensa do professor.

O baque foi grande. Sem o mestre, Hercules perdeu o chão. Deixou o piano solo em segundo plano e seguiu tocando em grupos até que voltou a sentir a necessidade de deixar sair uma música que nem ele sabe ao certo de onde veio. Ou sabe. Veio talvez de quando tinha 8 anos, no dia em que o pai chegou em casa com um violão da Turma da Mônica. "É... Naquele dia eu queria mesmo era ganhar um autorama."

HERCULES GOMES

A Loja de Pianos. Av.

Jabaquara, 162, Saúde, 5572-9602. Sábado (10/8), 16h. Gratuito.

 

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