Egon Endrenyi/Divulgação
Egon Endrenyi/Divulgação

Pelos obscuros caminhos da fé

Baseado em caso real e dirigido por Mikael Hafström, o suspense de exorcismo O Ritual entra em cartaz amanhã

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

10 de fevereiro de 2011 | 00h00

Alice Braga estava nervosa no dia em que o repórter do Estado visitou o set de O Ritual, num estúdio de Budapeste. Havia mais representantes da imprensa internacional e Alice, de alguma forma, se sentiu intimidada. Ela errou uma fala, na única tomada que os visitantes foram autorizados a assistir (pelo monitor). Acontece em qualquer set, e com veteranos. Alice estava encantada de estar trabalhando com Sir Anthony Hopkins. "Ele é muito generoso. Colin O'Donoghue (que faz o assistente, o aspirante Michael Kovak) é ainda mais inexperiente que eu. Já sou uma veterana perto do Michael. O Tony (Anthony Hopkins) trata a gente como igual. Não tem essa de frescura de ser o "Sir" Anthony", ela contou ao repórter do Estado.

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video Alice Braga fala sobre sua experiência

O próprio Hopkins só teve elogios para sua colega brasileira. Num encontro com um grupo de jornalistas, ele primeiro aliviou a batina, que terminou por retirar. O calor era insuportável no verão húngaro e o ar condicionado estava desligado - ou sendo canalizado para o estúdio, onde o diretor Mikael Hafström filmava. "Alice é muito bonita e talentosa. Só agora ela começa a tomar consciência de seu potencial. Ao longo da minha carreira já vi como a câmera acaricia certos homens e mulheres. São os que viram astros e estrelas. Alice possui essa qualidade."

Quanto ao fato de estar fazendo um thriller de exorcismo, Hopkins não vê nada demais. Ele admite que está cansado das filmagens, dos sets - e dos encontros com jornalistas, o que não o impede de ser afável com o grupo. Mas revela que um roteiro intrigante e um diretor persuasivo conseguem fazê-lo aceitar papéis que a preguiça talvez lhe fizesse recusar. "Foi o caso de O Ritual. Pesou bastante o fato de o filme ser inspirado num caso real (baseado no livro homônimo escrito por Matt Baglio), a história do seminarista Michael Kovak (vivido por Colin O'Donoghue)."

Na trama, garoto entra para o seminário e se torna assistente do padre Lucas no exorcismo de uma grávida, em Roma. O jovem não acredita no ritual, mas alguns signos colocam seu ceticismo em dúvida. E o próprio padre Lucas é possuído e cabe a Michael, o aspirante, virar o mestre exorcista. Sim, Anthony Hopkins viu O Exorcista de William Friedkin, no começo dos anos 1970. "Quem não viu?", ele pergunta. "Independentemente de acreditar ou não, o filme é muito bem-feito e assustador."

E O Ritual? "O roteiro já deixava claro que o filme terá muitas cenas gráficas de violência, mas o que me impressionou foi a verossimilhança. Os personagens são todos muito verdadeiros, não apenas o padre Lucas. Um jornalista italiano, que já havia encontrado Hopkins numa externa em Roma, pergunta se o filme encerra o seu comentário sobre o mundo das religiões e do fanatismo. Ele desconversa - "Não comento nada e acho que seria muita presunção de minha parte pensar o contrário. Se existe algum comentário num filme é do diretor, ou do roteirista. Eu sigo as ordens e dou o melhor de mim".

Ele conta que encontrou o diretor em Los Angeles. "Fomos jantar e ele foi tão entusiasmado me falando do filme que me convenceu." Por motivos de economia - e também para aliviar a pressão que a filmagem poderia sofrer, da imprensa, senão do Vaticano, em Roma -, a produção transferiu-se para a Hungria. "Estou adorando. Tenho passeado com minha mulher. Nas horas vagas vamos a restaurantes, passeamos de barco no Danúbio e visitamos mercados de pulgas. Isso aqui é o paraíso das antiguidades."

Pegando a deixa, o repórter comenta que a direção de arte é espetacular. No estúdio, os sets reproduzem a fachada de uma velha casa, supostamente em Roma. Os interiores são carregados de quinquilharias. "Mikael (Hafström) se liga muito nos objetos. Acha que eles ajudam a criar o clima e a convencer o espectador."

Um Oscar (por O Silêncio dos Inocentes), um personagem, emblemático (o canibal Hannibal Lecter), como Anthony Hopkins avalia sua carreira? "Esse é o tipo de pergunta que os jornalistas fazem, como se a carreira da gente fosse construída como um prédio. Nós, atores, vamos aonde as circunstâncias nos levam. E, mesmo quando fazemos alguma coisa, estamos dando um salto no vazio. Nunca se sabe se uma peça, um filme, vai dar certo. A gente não constrói a carreira escolhendo e sim, dizendo não. O que deixamos de fazer às vezes nos define muito mais."

Por que ele acha que se fazem tantos filmes sobre exorcismo? O que atrai o público? "São as questões profundas que remetem à existência de Deus e do Diabo. Quem somos, o que fazemos na Terra, o que nos torna vulneráveis?" Ele não se considera crente nem ateu. "Agnóstico, talvez." Acrescenta que o mundo moderno nos tornou a todos muito céticos. "Queremos ver, para crer. O problema é que vivemos numa sociedade da imagem, onde tudo parece permitido e a manipulação corre solta." Está sendo uma longa trajetória desde O Leão no Inverno, de Anthony Harvey, nos anos 1960. "Nada como o tempo. Naquela época, eu era como Alice e Colin. Os veteranos eram Peter O"Toole e Katharine Hepburn e eu ficava discretamente olhando os dois atuarem, querendo aprender. Hoje, todo mundo acha que o mestre sou eu, mas um ator aprende a técnica e dispõe dela, só que a técnica não é tudo. Se um filme não traz um elemento novo que o motive ou fascine, é melhor nem fazer."

O RITUAL

Nome original: The Rite. Direção: Mikael Hafström. Gênero: Drama (EUA/ 2010, 114 minutos). Elenco: Anthony Hopkins, Alice Braga, Rutger Hauer, Chris Marquette. Estreia amanhã.

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