Acervo Pessoal
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Pelos labirintos da poesia de Borges

Augusto de Campos reúne, em antologia, traduções de versos tardios do argentino e o relato de uma entrevista feita em 1984

Antonio Gonçalves Filho,

16 de março de 2013 | 00h05

Foi em 1923 que o escritor argentino Jorge Luis Borges (1899- 1986) publicou seu primeiro livro de poemas, Fervor de Buenos Aires. Ao reeditar a obra, em 1969, "mitigando seus excessos barrocos e limpando asperezas", Borges concluiu que o jovem que escrevera esse livro não mudara, essencialmente, ao longo dos anos - ainda queria ser Macedonio Fernandez e "descobrir algumas metáforas que Lugones descobriu". No entanto, o argentino já estava distante do jovem ruidoso dos anos 1920 quando o poeta e tradutor Augusto de Campos, em 1984, visitou-o em sua casa, na Calle Maipu, em Buenos Aires. Borges, cego, estava prestes a lançar sua derradeira obra, Os Conjurados. Longe de seu duplo vanguardista, voltava a formas poéticas ligadas à tradição no fim da vida.

Augusto de Campos, tradutor dos modernos Mallarmé, Maiakovski e Pound, ouviu de Borges, nessa conversa de quase 30 anos atrás, que preferia esses seus últimos livros às experiências vanguardistas que tivera aos 24 anos. O anacronismo dos sonetos borgianos, contudo, não incomodou seu tradutor, que lança hoje, às 14h30, na Casa das Rosas, uma antologia de 20 poemas tardios do argentino, Quase Borges (Terracota Editora). Ele participa também de um debate com o escritor e poeta paulista Omar Khouri, que o precedeu na histórica visita à casa de Borges, como conta no livro o autor de Viva Vaia, um dos mentores da poesia concreta brasileira ao lado do irmão Haroldo de Campos (1929-2003) e Décio Pignatari (1927-2012).

No livro, o poeta brasileiro revela como tomou coragem e telefonou do hotel onde estava hospedado para a casa de Borges, falando com Fanny, a fiel governanta, que passou o telefone ao escritor. Duas semanas antes, Omar Khouri, passando pela Calle Maipu, havia apertado o botão do interfone, pedindo uma entrevista a Borges, que, para sua surpresa, o recebeu, conversando um bom tempo com o poeta e artista gráfico brasileiro. A descrição da visita de Augusto de Campos a Borges ocupa 15 páginas de sua antologia poética, mas poderia ter mais: é bastante reveladora do estágio final da vida do grande intelectual descendente de portugueses - seu bisavô Francisco teria vivido em Torre de Moncorvo, velha cidade de Trás-os-Montes. Ele, aliás, cita Camões com grande intimidade na conversa. Borges leu Os Lusíadas primeiro numa tradução inglesa e dedica a ele um dos poemas da antologia. No entanto, para perplexidade de Campos, diz que só conhecia Fernando Pessoa por intermédio de alguns amigos.

Campos, contrariando a opinião de Borges sobre edições bilíngues, optou em sua antologia por colocar lado a lado original e tradução. Para Borges, toda tradução tem vida autônoma, sendo a literal uma prova de infidelidade suprema ao autor ("por dar somente o sentido e não o essencial, que é a linguagem", observa Campos). A discordância do tradutor brasileiro da opinião de Borges tem, no entanto, uma explicação: as edições bilíngues, segundo Campos, trazem "a vantagem de iluminar a percepção e a vivência das redescobertas" do tradutor-poeta. Em sua viagem transcriativa, Campos opta, portanto, pela edição bilíngue, que deixa mais claro o anacronismo dos últimos poemas de Borges. Para o tradutor, não há motivos que justifiquem qualquer espécie de constrangimento. Borges é conciso, preciso e seus poemas podem ser lidos "como apropriações sintéticas e lapidares de seus outros escritos".

De fato, os 20 "transpoemas" de Borges falam de labirintos (no poema dedicado ao filósofo e literato espanhol Baltazar Gracián), espelhos (Um Cego) e rios metafóricos que traduzem a condição existencial (no poema dedicado a James Joyce). Em nenhum deles Augusto de Campos cede à tentação de recriar Borges num outro registro além da tradução simples e direta desses poemas com métrica perfeita que, se parecem distantes dos tempos da vanguarda do início do século 20, deixam o leitor deslumbrado com o poder de síntese do autor, caso do poema dedicado a John Keats, um dos últimos representantes do romantismo inglês.

QUASE BORGES

Organização e tradução:

Augusto de Campos

Editora: Terracota

(100 págs., R$ 39)

Lançamento neste sábado na Casa das Rosas, a partir de 14h30

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