Pelo telefone

Escrevo de uma cenário idílico. À minha esquerda, uma família de cardeais - os alados, bem entendido - disputa, entre piados ruidosos, as sementes de girassol no alimentador de pássaros (ô tradução feia para um objeto tão poético). À direita, um canteiro impecável de flores que não sei nomear. Ao fundo, a vegetação densa revela as águas do Rio Patuxent, tão profundas que a Marinha americana testa seus submarinos por estas bandas.

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

28 de maio de 2012 | 03h12

Uma brisa adorável atravessa o pórtico da minha anfitriã e, de repente, ambas soltamos exclamações impublicáveis. A campainha do telefone fixo, plantado numa base lá perto da porta da casa, interrompeu a leitura dela e a minha concentração. Nossa indignação espontânea é sintoma de que o telefone fixo se tornou o dinossauro dos eletrodomésticos. Não me lembro há quanto tempo ouvi as mensagens na secretária eletrônica. Não é que abri mão da vida social, mas fui olhar as chamadas mais recentes - bendito identificador de chamadas! - e não havia um nome de parente ou amigo: Carnegie Hall, Filarmônica de Nova York, o grupo de teatro Roundabout, todos querem me vender ingressos. Minha operadora telefônica me entregou descaradamente para empresas de marketing. "Você entende o significado da palavra 'nunca' como em nunca telefone para minha casa?", pergunto, possessa, quando cometo o deslize de atender. Uma ONG internacional de assistência a crianças me pegou desprevenida e manipulou perfeitamente a minha mistura de culpa e exasperação, para me aliviar de alguns dólares.

Quando você quer falar com alguém, qual é o seu primeiro impulso? A resposta ainda depende da sua geração, mas imagino que a maioria dos leitores, numa enquete informal, diria: "mando email ou mensagem de texto". A mais recente pesquisa de opinião do Estado da Flórida, onde a eleição presidencial americana pode ser decidida, revela que Mitt Romney tem vantagem apertada, de 48% a 45% sobre Barack Obama, mas só entre os que responderam pelo telefone fixo. Entre os que responderam por celular, Obama dispara, com 57%, ante 34% de Romney.

O celular não apenas substituiu o telefone fixo, o smartphone promoveu a abolição da conversa vocal. Há três anos, uma chamada por celular nos Estados Unidos durava uma média de três minutos. Hoje, as pessoas desligam depois de pouco mais de um minuto. Quem poderia esperar que a comunicação escrita fosse se tornar tão informal e empobrecida? Podem me chamar de saudosista, mas quando recebo um SMS, como "saudades, vc quer pegar um filme no fds? bj," suspeito que, mais do que as palavras, o afeto também foi abreviado.

A extinção gradual de duas profissões, recepcionista e secretária(o), retirou uma barreira de proteção nos escritórios, onde o telefone é encarado como uma arma de assédio. Fico fascinada quando telefono para assessorias de Relações Públicas em Nova York e a pessoa que atende deixa clara a irritação pelo que agora parece ser uma violação de etiqueta. Mande seu pedido por escrito, o assessor responde, me passando dever de casa e reinventando sua profissão. Por isso mesmo, insisto em telefonar e gravar um recado, porque os que vivem de atender jornalistas aprenderam a se esconder atrás do email. Embora a desculpa esfarrapada - "não recebi a mensagem, deve ter ido direto para o spam" - esteja caindo em desuso, o preguiçoso não vai ter coragem de dizer: "seu recado não foi gravado". Tanta má vontade em conversar ao vivo me contaminou. Minha secretária eletrônica anda desligada. Notei que, quando passava alguns dias fora, começava a ficar ansiosa ao colocar a chave na porta, temendo as expectativas contidas nas mensagens.

Outro dia, telefonei para a casa de um amigo, que ainda usa a secretária eletrônica, para agradecer por um convite, certa de que ele estava fora. Levei um susto quando ele atendeu, e confessei, sem graça: "Não esperava que você estivesse aí". Ah, você telefonou porque não queria falar comigo, ele concluiu, com toda razão.

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