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Pelo prazer de tocar

Iván Fischer rege músicos húngaros na Sala São Paulo

João Luiz Sampaio, O Estado de S.Paulo

07 de maio de 2011 | 00h00

Ninguém de fato imaginou que a ideia pudesse dar certo. Um jovem regente, depois de anos estudando em Viena e Salzburgo, resolve voltar a sua Budapeste natal. Depois de observar o cenário musical e, mesmo sem apoio oficial, decide, juntamente com um colega pianista: quer montar uma nova orquestra. Arregimenta um punhado de jovens músicos e faz um primeiro concerto.

Isso tudo se deu no começo de 1983. Desde então, já se vão quase 30 anos. E a Orquestra do Festival de Budapeste é hoje um dos principais conjuntos sinfônicos europeus. "Foi um sonho, repleto do idealismo da juventude e hoje só posso dizer que estou feliz que ele não apenas tenha se tornado realidade mas, mais do que isso, seja um sucesso tão grande. Não foi fácil e acho que só o entusiasmo dos músicos e o prazer de simplesmente tocar explica que tenhamos chegado até aqui", diz o maestro Iván Fischer, que dirige o conjunto hoje e amanhã, abrindo a temporada da Sociedade de Cultura Artística - os concertos estavam programados para o Municipal mas, com o adiamento da reabertura do teatro, foram transferidos para a Sala São Paulo.

Na turnê latino-americana, a orquestra vem acompanhada de dois solistas. Hoje, toca o violinista József Lendvay, que interpreta o Concerto n.º 1 de Paganini; amanhã, o pianista Dejan Lazic, que se apresentou com a Osesp no ano passado e, desta vez, vai solar o Konzertstück, de Weber. O programa terá ainda, hoje, a Suíte de Danças, de Bartók, e a Sinfonia nº 5, de Tchaikovski; e, amanhã, Valsas Praguenses e Danças Eslavas, de Dvorak, e a Sinfonia n.º 3, de Schumann. "Uma marca de nosso trabalho tem sido buscar a diversidade de repertório, mantendo sempre a missão de encontrar para cada um a sonoridade ideal. Uma orquestra precisa ser versátil, não gosto da ideia de especialização", diz Fischer. "Isso está de alguma maneira relacionado com o que, acreditamos, deve ser a função de uma orquestra sinfônica nos dias de hoje. Nosso trabalho não pode se resumir ao sucesso pessoal, ao gosto pessoal, afinal, ele trata da felicidade espiritual das pessoas." Em 2003, a orquestra foi transformada em uma instituição nacional pelo governo húngaro.

Método. Fischer nasceu em 1951, em Budapeste, e estudou no conservatório que leva o nome de um dos grandes patrimônios da música húngara: o compositor Béla Bartók. Em Viena, estudou com o lendário professor Hans Swarovsky, mestre de outros colegas, como o italiano Claudio Abbado. Em Salzburgo, trabalhou com Nikolaus Harnoncourt e, depois de uma série de vitórias em concursos internacionais, resolveu voltar à Hungria. Com a Orquestra do Festival, colocou em prática uma metodologia diferenciada, com um intenso cronograma de ensaios que inclui a música de câmara como ponto importante no desenvolvimento dos instrumentistas, do qual faz parte também a experimentação de repertório - ele criou o Festival Mahler, dedicado à produção contemporânea.

Parâmetro de qualidade. Mahler é uma das paixões de Fischer - e não por acaso seus premiados registros das sinfonias do compositor servem como parâmetro da qualidade do trabalho por ele desenvolvido com sua orquestra. Há uma série delas, com destaque para a leitura que oferece à Sinfonia n.º 2. Mas Fischer rechaça a ideia de gravar um ciclo completo. "É bobagem achar que a obra de um compositor precisa sempre ser tomada em conjunto. Há coisas melhores que outras, simples assim." Fischer não gosta, por exemplo, da monumentalidade da Sinfonia n.º 8, por exemplo, conhecida como "sinfonia dos mil", tamanha a quantidade de artistas envolvidos em sua execução. Mas relembra o prazer de ouvir, na juventude, as sinfonias regidas por Leonard Bernstein em Viena; e deixa clara sua admiração pelo compositor. "Ele é um gênio do mesmo nível de Bach, Mozart ou Beethoven."

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