Akira Kinoshita/Divulgação
Akira Kinoshita/Divulgação

Pelo prazer de fazer música

Itzhak Perlman mantém frescor na interpretação do grande repertório para violino e piano

Crítica: João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

23 de novembro de 2010 | 00h00

Alguns anos atrás, o pianista Nelson Freire me confidenciou que sempre o incomodou a mecânica da vida musical ortodoxa, que o obriga a definir o repertório de seus recitais com muita antecedência. Compreensível. Às vezes o músico não está no "mood" para interpretar determinada obra, mas submete-se a escolhas feitas anos antes - daí as execuções burocráticas, medianas e/ou desinteressadas, mesmo quando o músico é de altíssimo nível.

O fabuloso Itzhak Perlman resolveu o problema à sua maneira. Ocupa uma parte com obras anunciadas. E o restante fica por conta de seu humor na hora. Quem sofreu mais foi o virador de páginas, que carregou um catatau de partituras no início da segunda parte. Foi engraçado ver o excelente pianista Rohan de Silva com um olho na pilha de partituras e outro no mestre prestes a se decidir. Foi o que aconteceu no recital de domingo na Sala São Paulo, primeiro de uma série de três encerrando a temporada 2010 da Sociedade de Cultura Artística.

Foi o melhor de dois mundos. De um lado, no repertório anunciado, Perlman foi irretocável em suas características: poder de ataque único no instrumento, mão direita inacreditável, construção sutil de cada frase, arcos dinâmicos e afinação. E, sobretudo, os enfoques liberais das partituras. Perlman tem a chama do gênio que interage com as obras-primas, não fica escravo absoluto do texto musical. Tudo isso sem esquecer a volumosa sonoridade de seu violino - até os pizzicati do Adagio cantabile da sonata nº 7 de Beethoven eram perfeitamente audíveis no mezanino da Sala São Paulo.

É formidável como um músico tão experiente e rodado - já gravou e tocou "n" vezes todo o repertório de seu instrumento, estabelecendo quase sempre novos padrões de referência - ainda é capaz de empenhar-se a fundo quando adentra o palco. Na sonata de Leclair, o pai da escola francesa de violino do século 18, ele colocou diante de nós "les goûts reunis", meta maior do compositor barroco ao assimilar, em sua perspectiva francesa, o estilo italiano de Corelli, da "sonata da chiesa" em pares de movimentos contrastantes. Em Beethoven, apropriou-se do gesto heroico do compositor ao dedicar as três sonatas opus 30 ao czar russo Alexandre I, déspota esclarecido que aboliu a censura, ampliou o ensino público na Rússia, abriu o país a publicações estrangeiras e fez acordos de paz com França e Inglaterra (sentido ideológico igual ao da dedicatória a Bonaparte, depois renegada).

Daí o apelido "Eroica", daí as vastas proporções, onde o diálogo cerrado entre violino e piano foi razão de uma execução memorável. E em Dvorák, Perlman ressaltou na sonatina contemporânea exata da Sinfonia Novo Mundo seu caráter de "lição de composição" aos norte-americanos (Dvorák fora contratado por um caminhão de dinheiro para ensinar-lhes como se fazia grande música com identidade nacional). São visíveis os padrões melódicos capturados nas músicas folclóricas de índios e negros.

O exercício da liberdade. A última meia hora do concerto foi um verdadeiro show off combinando extrema, inacreditável virtuosidade, com interpretações de melodias lentas encharcadas de sentimento. Mas o que poderia parecer mero exibicionismo transforma-se em Perlman no gesto de paixão inaudita pelo seu instrumento. Sentimento que deseja partilhar com o público. Aí foi o nirvana. Ele privilegiou seu ídolo, o violinista austríaco Fritz Kreisler, campeão do exercício da liberdade do intérprete no período entre-guerras do século passado, com suas extasiantes transcrições das melodias mais conhecidas: desfilaram temas popularíssimos como o Capricho de Wieniawski, a canção Après un Rêve de Fauré, Chanson sans Paroles de Tchaikovski, a Dança Espanhola de De Falla. Perlman não esqueceu de tocar um tema original de Kreisler, o delicioso Tambourin Chinois. Sem saber, talvez, homenageou Guiomar Novaes/Nelson Freire ao tocar a Dança dos Espíritos de Gluck by Kreisler, extra preferido dos citados pianistas brasileiros. E fechou o ramalhete de "hits" com o tema de A Lista de Schindler, filme de Spielberg do qual participou tocando. Show off? Sim. Paixão pela música? Mais ainda.

ITZHAK PERLMAN

Sala São Paulo. Praça Júlio Prestes, s/nº, Luz, 3258-3344. Hoje, às 21 h. R$ 110/ R$ 250.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.