Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Pelo olhar da mulher

Com emoção, Christiane Kubrick conta como 'seu' Stanley era 'intenso'

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

20 de outubro de 2013 | 03h23

Ele era o que se poderia chamar de workaholic, sempre obcecado por seus filmes. "Na verdade, Stanley (Kubrick) era muito intenso. Em tudo. Quando não estava filmando, interessava-se pela família, pelos filmes dos outros, por política, por esportes, por música. E adorava futebol." Tiveram três filhas, e quatro netos. Como avó, Christiane é coruja. "Eles moram comigo. Possuem de 19 a 31 anos. Dois são músicos, e o mais jovem é um gênio." Herdou o DNA do avô? "Ele é tão bom com a guitarra elétrica quanto com o violino clássico."

Christiane lembra-se do dia das filmagens de Barry Lyndon, que inspiraram sua aquarela (e a vinheta da Mostra). "Chovia torrencialmente e Stanley filmava uma externa. O desafio da produção era impedir que os figurinos dos atores e atrizes, aquelas pesadas roupas de época, não ficassem enlameadas. Para cada figurante havia dois ou três ajudantes segurando as caudas dos vestidos." É um filme que a encanta. "O que Stanley fez com a luz natural em Barry Lyndon foi algo único. A luz, a cor. É um filme perfeito."

É o seu preferido? "Todo mundo me pergunta qual o filme dele que prefiro. Tirando os primeiros, acompanhei o processo de todos os demais, a partir de Glória Feita de Sangue. Não consigo escolher, e não é por meu envolvimento nem por serem tão diversos entre si. É como a cor na paleta de um pintor. Como vou dizer que o azul é mais importante que o branco?" O repórter tenta argumentar - Picasso teve a fase azul, Van Gogh privilegia os amarelos e na vinheta da Mostra - a aquarela dela -, predominam os verdes. "Mas é porque era a cor dominante naquele cenário. Estávamos no campo."

Como Christiane se define, é uma pintora de landscapes, paisagens. Mas depois ela se corrige: "Pinto o que me cerca. Se morasse aqui, pintaria..." E na sala do último andar do hotel na Av. Paulista, faz um gesto que abarca... tudo. Tirando esses períodos de viagens, que são muitos, leva uma vida intensa (não tanto quanto a de Kubrick), mas tranquila. "Pinto, preparo minhas exposições. E leciono pintura." Kubrick e ela construíram seu bunker fora de Londres, numa área rural. "Ele adorava animais. Todos. Parte dos estábulos virou estúdio, no qual dou minhas aulas." Quem são os alunos? "Crianças, adolescentes. Os que, como eu, amam a pintura."

Seu barato nunca foi ser atriz, mas ela está imortalizada no desfecho de Glória Feita de Sangue. Quando os soldados que defendia são fuzilados, Dax (Kirk Douglas) fica desiludido, com o ânimo lá embaixo. E aí ele ouve a garota cantar na estalagem. "Stanley não queria uma cantora. Queria alguém que cantasse com mais emoção que afinação. Foi a minha sorte", e ela ri. É muito simpática, e 14 anos depois - Kubrick morreu em 1999 -, ainda fala nele com amor. Era o desejo de Kubrick fazer a obra-prima definitiva de cada gênero com que trabalhou. Fez filmes de guerra, terror, fantasias científicas, alegorias políticas. Kubrick só foi parcimonioso ao filmar o amor. Mesmo assim, Spartacus tem cenas lindas entre Kirk Douglas e Jean Simmons.

"Ele não gostava de filmar uma cena íntima só para mostrar o sexo. Ela tinha de ser orgânica, fundamental. As de Spartacus são." Era um filme que ele renegava. "Stanley foi contratado pela empresa produtora de Kirk Douglas. Não tinha direito a final cut. É um filme que tem coisas grandiosas, e belíssimas, mas ele gostaria de ter feito outra montagem." A cena em que os escravos vão se identificando e dizendo "Eu sou Spartacus" é emblemática. É como se o próprio Kubrick estivesse querendo imprimir nela sua assinatura. Inspirou Peter Sellers a fazer aquela piada em Lolita - "I'm Spartacus, set me free." Sou Spartacus, devolvam minha liberdade.

Sobre De Olhos bem Fechados, Harlan e ela estão de acordo. Kubrick comprou os direitos do livro de Arthur Schnitzler no começo dos anos 1970. Demorou quase 30 anos para fazer o filme. "Tem gente que diz que não é um grande Kubrick, mas todo ele está ali dentro, como uma súmula", avalia Harlan, que é professor de cinema e faz palestras em todo o mundo, não apenas sobre Stanley. Christiane concorda. Na sexta, ambos apresentaram os filmes da retrospectiva, no primeiro dia da Mostra para o público. "Seus filmes (de Kubrick) não cessam de nos surpreender. Veja Nascido para Matar. Na relação custo/benefício, foi um de seus filmes mais bem sucedidos. Foi feito nos arredores de Londres, em boa parte numa usina abandonada. Custou pouco e rendeu muito. Mas não é um filme de guerra nem sobre o Vietnã. É sobre a lavagem cerebral dos jovens", define Harlan. "Como Laranja Mecânica", acrescenta Christiane.

Kubrick lia críticas? "Algumas. Havia pessoas que ele respeitava." Chegava a se surpreender com o que escreviam sobre ele? "Surpreender, não digo, mas o que o encantava eram as reações dos jovens a 2001. Davam-lhe esperança para o futuro."

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