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Pelo computador

Como o amor e as compras, um dia a democracia também será feita só através da internet

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

02 de julho de 2017 | 02h00

Em 2018, teremos eleições, e a oportunidade de renovar a política brasileira de cima a baixo. Ou, pelo menos, de melhorar a qualidade dos nossos políticos, mesmo que alguns dos condenados e execrados de hoje consigam se reeleger. Das urnas eletrônicas de 2018 sairá certamente um Brasil melhor. Inclusive porque pior ele não pode ficar.

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As urnas eletrônicas são um exemplo da invasão da cultura cibernética nos nossos costumes. E já há quem imagine que elas são o começo de uma informatização progressiva do processo eleitoral que culminará, um dia, com a eliminação do próprio candidato. Assim como as urnas eletrônicas tornaram obsoleto o voto de papel, as maquininhas de votar se aperfeiçoarão ao ponto de substituir o candidato por um projeto de candidato. Em vez de digitar na urna os números que identificam o candidato com as características e as qualidades que você quer, você digitará os números que identificam essas características e qualidades - e o computador fabricará um candidato com as especificações mais procuradas. Em vez de um presidente, por exemplo, teríamos uma espécie de print out consensual. 

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Como o amor e as compras, um dia a democracia também será feita só através da internet. Você não precisará sair de casa para votar - e poderá votar em qualquer eleição do mundo! Se a globalização já tivesse chegado a esse ponto você poderia ter votado nas recentes eleições na França e na Inglaterra, por exemplo, e ajudado a derrotar o Trump. Só não votará quem não estiver ligado na internet, mas a essa altura quem não estiver ligado na internet não fará mais nada, e não será mais ninguém. 

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E um dia o circuito se fechará. Digitaremos no nosso computador para eleger computadores. Computadores programados farão o trabalho do Legislativo e do Executivo. Eliminaremos o fator humano, portanto a ineficiência e a corrupção, a técnica nos dominará e seremos felizes. Ou infelizes, dará no mesmo, porque não haverá ninguém para culpar, e os computadores farão pouco dos nossos protestos. Até o presidente será um computador central. E, no Brasil, a única coisa certa é que o computador vice será do PMDB. 

 

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