Fernando Antunes/Divulgação
Fernando Antunes/Divulgação

Pelo caminho do meio

Fora das leis de incentivo e do Fomento, artistas buscam caminho alternativo

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

08 de maio de 2011 | 00h00

Elias Andreato levou alguns anos acalentando a ideia de montar Édipo. Estudou a obra de Sófocles, escreveu diferentes versões para o texto, apresentou o projeto para muita gente. "Mas ninguém se interessava", conta o ator e diretor. Depois de algumas leituras, resolveu levar a proposta adiante mesmo sem muito respaldo. Com orçamento zero, chamou amigos para trabalhar no elenco e na equipe técnica e começou a ensaiar. O único dinheiro a entrar na produção foi um cachê de R$ 10 mil, resultado de duas apresentações no Festival de Curitiba deste ano. E só.

Mas por quê? A princípio soa pouco crível que um dos mais destacados atores de sua geração, dono de uma série de prêmios e de uma trajetória de mais de 30 anos no teatro, não consiga recursos para montar uma peça. Afinal, dispomos hoje de uma série de mecanismos de financiamento para as artes cênicas e eles parecem abarcar os dois extremos da cena teatral. As grandes montagens, aquelas produções ditas comerciais, conseguem viabilizar seus projetos por meio das leis de incentivo. Já do lado oposto da trincheira, está o teatro de grupo, setor responsável por espetáculos experimentais, que encontra respaldo na Lei Municipal de Fomento ao Teatro. "Eu, no entanto, fiquei no meio do caminho", ressalva o diretor. "Como não faço parte de um grupo estável, não posso pleitear o Fomento. Mas também não faço televisão. Então, são poucas as minhas chances numa lei de incentivo, já que não tenho apelo para as empresas."

Como artista independente, Andreato ocupa hoje um hiato no espectro teatral, lugar descoberto pelos dispositivos públicos de financiamento. Mas ele não está sozinho. Merece a companhia de um razoável agrupamento de atores e atrizes, que vivem a mesma situação e, para driblar as dificuldades, resolveram ampliar suas funções: deixaram de ser apenas intérpretes e se transformaram em produtores de si mesmos.

"É essa a opção que conseguimos inventar", diz a atriz Rachel Ripani. Para tornar viáveis as suas montagens, Rachel acabou expandindo seu campo de atuação. É dona de uma produtora e busca meios alternativos de angariar fundos. "Parece que só existem dois meios de produzir: ou você é a Time for Fun ou faz teatro de grupo. Não existe essa dicotomia. Quero criar uma via intermediária", comenta ela. "Hoje, vivemos um momento bastante interessante, de crescimento e fortalecimento dos produtores independentes. Vamos pelo caminho do meio."

Quando fala em caminho do meio, Rachel se refere à procura por diferentes fontes de capital para levantar uma única produção. "Uso pequenos editais. Também vendo apresentações, consigo investidores privados. Vou acumulando os recursos aos poucos, ao longo da temporada."

Para produzir Anatomia Fronzen, peça que trata da delicada temática da pedofilia, Rachel diz ter usado exatamente esse método. E conseguiu arrecadar um valor bastante expressivo para montagens desse porte: R$ 500 mil. "É bem mais do que ganharíamos com o Fomento, por exemplo."

Lição de Paulo Autran. Quem constrói uma trajetória semelhante é Otavio Martins. O ator, que começou sua carreira ligado à Companhia do Latão, há alguns anos passou a procurar montagens independentes. Tornou-se dramaturgo e hoje também possui uma produtora teatral. "Passei a me produzir porque busco autonomia artística. O grande barato para um artista é poder falar o que ele quer", diz. "Dentro de um grupo você tem um compromisso que é coletivo. E não é necessariamente aquilo que você tem vontade de dizer naquele momento."

Martins conta que aprendeu a lição com o ator Paulo Autran. "Ele me ensinou: se você não correr atrás do seu sonho, ninguém vai correr para você." Mas nem sempre é fácil encontrar meios de tirar os planos do papel. "Existe hoje um vácuo nesse setor dos pequenos produtores. Estamos expostos a uma lei de mercado que não nos serve", complementa. Mesmo com um projeto aprovado pela Lei Rouanet, Martins nada conseguiu captar.

Gero Camilo relata situação parecida. Um de seus espetáculos de maior sucesso, Aldeotas segue sendo reapresentado desde sua estreia, em 2004. O ator, que é também dono da Macaúba Produções, conseguiu autorização para captar R$ 1 milhão pela Lei Federal de Incentivo à Cultura. A intenção era fazer um grande projeto envolvendo a montagem, um livro e outras ações. O prazo para captação, contudo, está se esgotando e interessados ainda não apareceram.

Para criar A Casa Amarela - atualmente em cartaz - Camilo nem tentou pleitear um patrocínio. Depois de a peça estrear, conseguiu apoio de um investidor privado. Mas não esperou por isso para pôr o trabalho de pé. "Às vezes é todo um processo muito burocrático, moroso. Queria fazer logo."

O ator e dramaturgo também não pensou em viabilizar a montagem vendendo-a para entidades privadas, que costumam oferecer uma verba para produção e apresentação de espetáculos. "Os cachês pagos por essas instituições estão hoje muito rebaixados", afirma.

Produções independentes podem ser opção para veteranos ou estreantes. No caso da atriz Julia Bobrow, foi a alternativa encontrada para "aparecer" no mercado. Hoje no Satyros, a jovem conta que, quando concluiu o curso da Escola Célia Helena, bancou do próprio bolso sua estreia profissional na peça Rosa de Vidro (2007)."O dinheiro investido nunca volta. Mas valeu a pena. O retorno vem de outras formas. A montagem ficou três anos em cartaz e acabou me abrindo muitas portas" , conclui Julia.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.