"Pele, Alma" mapeia uma certa arte

Muito mais que um projeto acadêmico a extensa e contínua pesquisa levada a cabo pela curadorapaulistana Katia Canton - crítica de arte e docente do MAC USP(Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo) - éum projeto de vida que está completando dez anos e inaugura,hoje, mais uma grande exposição que mapeia a produção recente daarte contemporânea brasileira consagrada, no Brasil e no mundo,a partir dos anos 90. Pele, Alma, que ocupa os três andaresda sede paulistana do CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil),investe sobre o que a curadora chama de "nova espiritualidade"na arte, tendência relacionada a uma maneira particular deabordar o corpo, na conexão do material com o espiritual. "Não se trata do corpo matizado pela violência quepovoou o universo da produção artística dos anos 1990, o corpofragmento e estranhamento, o corpo simulacro, distanciado davida pela virtualização do mundo e das relações, apersona-máscara que habita o anonimato das grandes cidades",avisa Katia. "A exposição fala de um corpo que é pele e poros,uma membrana para passagem de verdades, caminho aberto pelasvias da respiração e da transpiração." Este conceito de permeabilidade da pele, espécie deinterface orgânica entre a poética íntima do artista e o mundo,atravessa toda a exposição e se relaciona com a simbologia daalma do artista. "Obviamente não se trata do sentido religiosoque costuma ser dado à idéia de alma", lembra a curadora, queinveste sobre a subjetividade dos artistas, profundamentemarcados por esta experiência do corpo na contemporaneidade,vítima de inúmeros ataques, do anonimato urbano à experiênciatraumática da Aids, passando pela idéia nebulosa da clonagem. Além de suas próprias investigações e do embatecotidiano com as obras (Katia é freqüentadora contumaz deateliês e acompanha de perto o percurso dos artistas), doistextos-chave serviram de guia para pensar a coletiva: Amor,Poesia e Sabedoria, de Edgar Morin, e Os Cinco Sentidos,de Michel Serres, em que o autor escreve sua célebre frase: "Aalma mora no ponto onde o eu se decide". A curadora escolheu cerca de 40 trabalhos de 17 artistasbrasileiros, divididos em quatro módulos: A Pele É Roupagem daAlma, Alma em Dor, Desenhos da Pele e AlmaBrilhante. Na seleção de Katia, figuram muitos consagrados(Leda Catunda, Rosângela Rennó, Ernesto Neto, Adriana Varejão,Efraim Almeida e Flávia Ribeiro), ao lado de jovens que elaacompanha há tempos (Sandra Cinto, Albano Afonso, José Rufino,Sonia Guggisberg e Sandra Tucci, entre outros) e nomes aindapouco conhecidos do circuito paulistano (caso de Debora Muszkate Paulo Gaiad). No segmento principal, A Pele É Roupagem da Alma,ganham corpo "obras que se tornam peles". São trabalhosconstruídos em tecido (veludos, elancas, tules e telas), queemprestam os tons e texturas da pele humana, mais seus possíveisrevestimentos. O destaque é uma megainstalação de Ernesto Neto,com 15 metros de altura, que atravessa os três andares doedifício, do teto ao chão, como enormes gotas translúcidas epenetráveis, preenchidas pela cor e pelo cheiro de temperos econdimentos. "Ele cria um espaço de afetividade, materializaesculturas que se tornam verdadeiros universos biológicos,estruturados ritualisticamente. São templos, santuários dapele", compara Katia. Efrain Almeida, que se apropria da tradição popular dosex-votos e simultaneamente restabelece o lugar do corpo no mundocontemporâneo, exibe mãos de cedro que seguram uma minúsculacamisa de aspecto sedutor, mas onde pesa a ausência de umcorpo. As esculturas de Sonia Guggisberg reestruturam esubvertem a herança construtiva brasileira, criando corpos dedobras, manipulando planos maleáveis e monocromáticos que, porsua vez, são submetidos ao serem dobrados, plissados e esticadospela artista. Completam este módulo obras recentes de RenataPedrosa, Solange Pessoa e Beth Moysés. Outra obra de grande impacto na exposição (esta nomódulo Desenhos da Pele) é a instalação concebida por SandraCinto. A artista dividiu uma parede de 15 m de comprimento por 4m de altura em três partes (cinza, verde claro e preto), cadauma se referindo a um momento de sua vida, estabelecendo umembate entre a dimensão realista de sua existência (simbolizadapor fotos da artista na infância, em situações lúdicas na praia)e a dimensão subjetiva, emocional e atemporal, ligada aospoéticos desenhos de montanhas, torres, estrelas e fogos deartifício, que integram as diferentes superfícies. Suaperspectiva pulverizada, que pede movimento constante e ativo doolhar, lembra o insólito dos espaços de Guignard. Além de Cinto, integram esta seção, a de sentido maislírico dentro da coletiva, criações de Rosangela Rennó e JoséRufino. Já Alma em Dor fala de feridas, cortes, dores edistorções como testemunhos das experiências de vida. Na visãoda curadora, estas rupturas podem levar a um aprofundamento dasuperfície da pele, aproximando corpo e alma. "Existe umasabedoria corpórea, memória física, secular, diretamenteconectada com as profundas camadas do ser", diz Katia. As telasde Adriana Varejão (particularmente Quadro Ferido, de 1992,e Azulejaria em Carne Viva, de 1999) são emblemáticas destesegmento de Pele, Alma, que também exibe as poderosascriações de Paulo Gaiad. Este artista de Santa Catarina, comseus pequenos objetos de papel e chumbo, materializatridimensionalmente imagens de feridas cicatrizes. O móduloreúne também obras de Karin Lambrecht (sala especial da 25.ªBienal, no ano passado), Dora Longo Bahia e Debora Muszkat. Por fim, Alma Brilhante abriga os trabalhos deAlbano Afonso, Flávia Ribeiro, Sandra Tucci e Del Pilar Sallum.Em seus auto-retratos, Albano investe contra a própriarepresentação do corpo do artista. Isso por meio do poderambíguo da luz que, se tradicionalmente ilumina e constrói aimagem, por outro lado tem o poder de desconstruí-la e, nolimite, anulá-la. Nas obras escolhidas por Katia para estemódulo, Albano recria sua própria imagem em cores exageradas,saturadas pelo excesso de luz amarela e azul, banhando asregiões de sua cabeça e seu peito. Sandra Tucci constrói um espaço imaculado, umainstalação com quatro corações feitos de bronze, representadosrealisticamente, sendo que cada um recebe a projeção de uma cordiferente (verde, amarelo, azul e violeta). Desta maneira, aartista decompõe o espectro, mas também os sentimentos querelacionamos ao órgão vital. "É como se Sandra tentasseharmonizar o labiríntico e instável reino emotivo, através deuma organização dos sentidos pelas vias da cor", analisaKatia. Na base da curadoria de Pele, Alma está ainda aconcepção de que todas as identidades são revestidas pela pele etranspiram nela seus desejos, repulsas, dores, alegrias,pulsações. Neste sentido, a pele potencializa nossa existência,pois é através dela que o outro nos penetra, nos atravessa. "Apele é a grande membrana que dá contorno e envolve a espéciehumana. Memória da experiência vivida, ela abriga os órgãos, asveias e artérias, o sangue, a linfa, o cérebro, a alma.Recoberta de porosidade, a pele é a superfície que liga ointerno e o externo, o corpo e o universo", escreve a curadorano ensaio inédito que será publicado no catálogo de Pele,Alma (cujo lançamento acontece no CCBB-SP dia 25 de fevereiro,às 19h). "A pele é o elo entre o dentro e o fora, entre o eu eo outro, ou melhor, o eu e os muitos outros que se desdobramnuma miríade de reflexos no complexo espelho que compõe aalteridade contemporânea. É a liga entre o sagrado, que envolvea noção de alma, e o profano, mundano, corpóreo, sensual,sensorial." A pesquisa de Katia Canton já gerou três grandesexposições coletivas, batizadas de Heranças Contemporâneas erealizadas no MAC USP, e o livro Novíssima Arte Brasileira -Um Guia de Tendências, editado pela Iluminuras. Amanhã, aomeio-dia, acontece a performance Lista, uma criação de KatiaCanton e Cristina Mutarelli. Serviço - "Pele, Alma". De terça a domingo, das 12 às18h30. Centro Cultural Banco do Brasil. Rua Álvares Penteado,112, em São Paulo, tel. (11) 3113-3651. Até 16/3. Patrocínio:Banco do Brasil.

Agencia Estado,

24 de janeiro de 2003 | 18h12

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