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Pelas águas da Vanguarda Paulista

Carlos Careqa reúne intérpretes de vários estilos e gerações para homenagear ícones do movimento

LAURO LISBOA GARCIA , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

12 de julho de 2013 | 02h12

A música de um certo capítulo da arte paulistana, que se convencionou chamar de Vanguarda Paulista, teve entre seus principais expoentes compositores e intérpretes que vieram de outras regiões, como o paranaense Arrigo Barnabé e as mato-grossenses Tetê e Alzira Espíndola, além dos interioranos Itamar Assumpção (1949- 2003) e Vânia Bastos, entre outros. Seguindo a mesma linha, o catarinense Carlos Careqa uniu o carioca Chico Buarque, a baiana Vânia Abreu, o gaúcho Nei Lisboa, além dele e dos representantes de São Paulo Mario Manga, Mariana Aydar, Marcelo Pretto, Tatiana Parra e Céline Imbert, de gerações e escolas musicais diferentes no álbum Ladeira da Memória - Afluentes da Vanguarda Paulista.

O CD lançado pelo Selo Sesc tem shows de lançamento hoje e amanhã no Sesc Pompeia, tendo como convidados vários músicos e intérpretes que participaram das gravações, exceto Chico, Mariana, Nei e Tatiana, que será substituída por Bruna Caram. "Às vezes as pessoas que fazem música não estão preocupadas com vanguarda, estão querendo fazer algo com uma cara mais pessoal, colocar sua estética na história", ressalta Careqa. "Quando quis fazer essa homenagem ao movimento conhecido como Vanguarda Paulista quis justamente misturar todas as coisas que tinham na minha vida, desde Chico Buarque até meus contemporâneos, pra dizer que todas essas pessoas sempre procuraram de uma forma ou de outra serem vanguardas nos seus tempos e na sua maneira de fazer música."

Originalmente o CD iria se chamar Obra-Prima, com canções-chave desse movimento, que Careqa considera imprescindível na música brasileira, como Ladeira da Memória (Zecarlos Ribeiro) cantada por Chico, Nego Dito (Itamar Asssumpção) e Nós (Tião Carvalho), recriadas na voz de Marcelo Pretto, Sonora Garoa (Passoca), interpretada por Vânia Abreu, A Companheira (Luiz Tatit), por Tatiana Parra, e Londrina (Arrigo Barnabé), por Careqa. Porém, por incluir Acho (dele mesmo), o título do disco poderia soar pretensioso. E o subtítulo tem a ver com os que, como ele, beberam da fonte dessa vanguarda como André Abujamra (Alma Não Tem Cor) e José Miguel Wisnik e Ricardo Breim (Laser), entre outros.

Na virada da década de 1970 para a de 80, quando esse "movimento" surgiu com autores e intérpretes jorrando criatividade que a indústria não absorvia, a solução foi partir para a produção independente, sem grandes recursos financeiros. Em consequência disso, muitos discos foram gravados e lançados sem o apuro técnico que havia no mainstream da MPB, bancado pelas majors. De certa forma, Careqa também compensa agora esse deficiência com um produto de qualidade sonora impecável e com arranjos sofisticadíssimos, sob a direção musical do pianista Paulo Braga.

Gil Assis, Tiago Costa, Gabriel Levy e Mario Manga criaram arranjos com instrumentos pouco usuais na música popular como oboé, fagote e trompa, mais comuns na música clássica - escolha que também foge do óbvio. "Quando pensei nessa homenagem a Arrigo, Tatit e Itamar, quis fazer uma coisa 'chique', mas clássica, não vulgar, que a pessoa que ouvir não identifique de que tempo é essa música, porque, Ladeira da Memória, por exemplo, é uma canção que vai permanecer durante muito tempo. É um clássico", diz Careqa. "A música venceu."

Nascido em Santa Catarina, Paraná, Careqa foi nos anos 1980 e 1990, uma espécie de divulgador dos compositores da Vanguarda Paulista em Curitiba, no Paraná, incluindo em seu repertório vários desses homenageados. Guto Lacaz, que criou a capa estilizada inspirado na escadaria da Ladeira da Memória (centro de São Paulo) também está ligado ao conceito de vanguarda e faz parte da trajetória artística de Careqa.

"Guto também tem uma significação muito forte. Quando eu estava vindo para São Paulo, fui abrir um show do Arrigo em setembro de 1990, quem estava fazendo exposição no mesmo espaço era Guto", recorda o compositor. "Ele tem a capacidade de enxergar nas obviedades coisas que mexem com a gente. Ficamos amigos e fizemos vários projetos juntos. Não poderia deixar de convidá-lo para participar deste, porque tem tudo a ver."

Para Careqa, a palavra vanguarda ainda "assusta um pouco". "Parece que os caras são dotados de uma capacidade especial, mas não é isso. É que São Paulo tem essa vocação desde sempre, desde a revolução industrial, porque vem muito imigrante para cá. E tem essa busca de estar associado ao restante do mundo. A gente não está na frente de Nova York, mas está sempre correndo atrás. O Sesc, por exemplo, é uma experiência de vanguarda dentro do mundo."

'Ladeira da Memória - Afluentes da Vanguarda Paulista'. Selo Sesc. R$ 20

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