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Peixe

O linguajar brasileiro está cheio de expressões racistas e preconceituosas que precisam de uma correção

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S. Paulo

21 Janeiro 2018 | 02h00

O “politicamente correto” tem seus exageros, como chamar baixinho de “verticalmente prejudicado”. Mas no fundo vem de uma louvável preocupação em não ofender os diferentes: é muito mais gentil chamar estrabismo de “idiossincrasia ótica” do que de vesguice. 

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O linguajar brasileiro está cheio de expressões racistas e preconceituosas que precisam de uma correção, e até as várias denominações para bêbado (pinguço, bebum, pé de cana) poderiam ser substituídas por algo como “contumaz etílico” para lhe poupar os sentimentos.

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O humor popular brasileiro, principalmente, abusa do politicamente incorreto, sem se dar conta. Basta ver os programas humorísticos de TV em que os tipos são, invariavelmente, estereótipos, consagrados desde os tempos do circo e do teatro de revista. Neles, o homossexual é sempre uma caricatura grotesca, o negro é sempre pouco inteligente, o judeu é sempre o usurário da prestação, a mulher – quando não é também grotesca – é uma gostosa simplória.

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O tratamento verbal dado aos negros é o melhor exemplo da condescendência que passa por tolerância racial no Brasil. Termos como “crioulo”, “negão”, etc. são até considerados carinhosos, do tipo de carinho que se dá a inferiores, e felizmente cada vez menos ouvidos. “Negro” também não é mais correto. Foi substituído por “afrodescendente”, por influência dos “afro-americans”, num caso de colonialismo cultural positivo (em contraste com a ridícula substituição de “entrega” por “delivery”). 

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Está certo. Enquanto o racismo que não quer dizer seu nome continua no Brasil, uma integração real pode começar pela linguagem. E poderia vir mais rapidamente se as outras etnias adotassem autodenominações parecidas. Eu só teria dificuldade em definir minha ascendência com alguma concisão. Luso-ítalo-germânico (e provavelmente afro)-descendente? Como boa parte dos brasileiros, não sou de uma linha, sou de um emaranhado.

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Quando eu era garoto, nós tínhamos uma empregada afrodescendente chamada Araci. Viveu conosco durante anos e nos divertia com histórias de um namorado apelidado de Bagdá, porque um dia tinha se entusiasmado com um filme das mil e uma noites. A Araci usava um nome apropriado para nós, de carne branca: peixe.

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Lembro da Araci me tirando da cama para ir à escola com a frase “Levanta, peixe!”. E completando: “A coisa que eu tenho mais nojo é ver peixe na cama”. Se fosse hoje, eu poderia protestar: “Peixe, não. Aquadescendente”. Ela provavelmente viraria a cama.

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Não sei por onde anda a Araci. Talvez o Bagdá a tenha levado para o deserto.

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