Pegou geral

Em vertiginosa ascensão no País, Criolo acaba de conquistar três grandes prêmios e se prepara para a primeira turnê internacional

LAURO LISBOA GARCIA, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

16 de junho de 2012 | 03h09

Que mistério tem o paulistano Criolo pra guardar-se assim tão firme no coração? Com o recato da Clarice de Caetano Veloso, reservado e sensível, ele pegou geral. Ídolo de médio porte, hoje conquistou o "amor de SP". E do Brasil. Por onde passa comove legiões crescentes de fãs - Recife, Salvador, Belo Horizonte, Brasília. Para qualquer show na cidade natal os ingressos se esgotam rapidamente. Versos de suas canções já são repetidos como bordões - como "acostumado com sucrilhos no prato" e "cantar rap nunca foi pra homem fraco". "Ele tem uma linguagem muito direta e segura, aí pega mesmo, vai com os pés no peito mesmo, sem rodeios", aponta o baixista e produtor Marcelo Cabral.

Homenageado por Chico Buarque, cortejado por Caetano, acumulando prêmios, como os três que recebeu esta semana pelo álbum Nó na Orelha, agora o porta-voz do Grajaú (bairro periférico de São Paulo) se prepara para seu maior voo internacional.

Fora do País já é apontado como um dos nomes mais representativos da nova música brasileira. Depois de ter cantado em Nova York e Buenos Aires, ele embarca para uma turnê que começa no dia 30 pela Inglaterra e segue para França, Itália e Dinamarca. Por fim, retorna aos Estados Unidos para cantar em Los Angeles e Nova York.

De cara, vai dividir o palco do festival Back2Black, em Londres, com ninguém menos que Mulatu Astatke, o papa do ethio-jazz citado na canção Mariô (dele e Kiko Dinucci) e homenageado em Para Mulatu, que canta no CD de Gui Amabis. Kleber Gomes (ex-Criolo Doido) parece fazer valer o alerta pronunciado na abertura de Nó na Orelha: "Fique atento quando a pessoa lhe oferece o caminho mais curto."

Para quem acordava de manhã sem saber se teria o mínimo para suprir as necessidades vitais há pouco mais de um ano, é uma conquista de entorpecer. "Nem sei responder, é tudo tão mágico. Nem no meu sonho mais ousado isso passaria pela minha cabeça", diz Criolo, entre um voo e outro, rumo a Fortaleza. "Estou muito contente. Fomos convidados pra todos os shows e receber esses convites é uma honra enorme. Estou ansioso. Tem um grupo de pessoas muito feliz em fazer parte e dividir esse sonho comigo. Quero fazer meu melhor e tenho certeza de que, acima de tudo, vou aprender e crescer muito. É inimaginável."

Mais de 20 anos de batalha se passaram para Criolo ganhar um significativo prêmio de... revelação. Por seu impactante álbum autoral Nó na Orelha (2011), o segundo da carreira, o cantor e compositor foi um dos que mais troféus levaram do Prêmio da Música Brasileira, quarta-feira, no Rio. Além de revelação, foi contemplado com os prêmios de melhor cantor e melhor álbum na categoria pop/rock/reggae/hip hop /funk. Para ele, esses prêmios representam "o reconhecimento de um encontro entre pessoas talentosas, que já eram contemporâneas, mas estavam sempre 'batendo na trave' pra se encontrar".

Engajado sem ser panfletário ou rancoroso, ele é um rapper melodioso e foi além do hip hop (Subirusdoistiozin, Grajauex, Mariô, Sucrilhos, Lion Man) com levadas de acid jazz e afro-funk nessas faixas, afrobeat (Bogotá), balada soul (Não Existe Amor em SP), brega/bolero (Freguês da Meia Noite), reggae/dub (Samba Sambei), afro-samba (Linha de Frente). O show já tem música nova, incorporando o ijexá da Bahia.

Gratidão ao rap. No entanto, ele faz questão de reforçar sua gratidão ao rap, não apenas como gênero musical. "Foi o rap que me ensinou a conviver com as pessoas, que me fez crescer como cidadão e isso vai além da sonoridade. Não tem como eu me esquecer do meu berço, da minha história, e num momento de importante reconhecimento como esse, nada mais justo do que agradecer ao meu berço", diz. "E mesmo que eu seja apenas mais um representante do rap nacional, faço questão de dividir com as pessoas essa arte que me ensinou a subir no palco, a construir meu texto e a me comunicar com as pessoas, com o público."

Criolo também reconhece que os produtores de seu disco e integrantes de sua afiada banda Marcelo Cabral e Daniel Ganjaman foram (e são) fundamentais na definição da sonoridade do disco que o levou a todos esses êxitos a partir dos antológicos shows de lançamento, nos dias 1.º e 2 de junho de 2011, no Sesc Vila Mariana. "Nada disso estaria acontecendo, não fosse pelo trabalho do Daniel e do Marcelo, e de todas as pessoas que eles convidaram pra participar do disco e que, me conhecendo há anos ou tendo acabado de me conhecer, tiveram uma entrega muito grande com o meu trabalho. Todos foram e continuam sendo muito generosos em dividir sua arte conosco", diz o cantor.

Cabral endossa: "O lado pessoal e musical entre todos nós é uma coisa só. A gente se conheceu e na primeira semana de produção já éramos amigos. E ele dormia em casa pra não precisar voltar tarde pro Grajaú e já estar de volta cedo no estúdio. Continua cantando e compondo sem parar no meio de tudo isso, não mudou em nada."

O saxofonista Thiago França, outro integrante da banda, diz que a ascensão de Criolo é, "antes de mais nada, o óbvio: Criolo tem um talento incomum, o disco é bom, o show é bom e o conteúdo gera muitas reflexões, que é raro, ponto a favor, deixa tudo em mais evidência ainda", diz. "Todo o resto, é cedo pra falar, deixemos para os historiadores. No mais, o nosso dia a dia não mudou: muita ralação e pouco glamour."

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