Pegadinha para discutir a fragilidade da imprensa

Há seis anos, Ricardo Kauffman era um jornalista que trabalhava em redações, mas flertava com o cinema. Sua área era a de economia e ele gostava de comentar com os amigos como a imprensa - "Nós", porque se incluía - dava espaço ao supérfluo. Notícias sem a menor relevância eram capazes de ganhar manchetes. Como isso ocorria? O documentário Abraço Corporativo, que estreia hoje - depois de receber prêmio na Mostra do ano passado -, busca responder à pergunta. Tem a ver com um fenômeno da sociedade contemporânea, a chamada "civilização da imagem". O público, cada vez mais, consome informação. Para as empresas, uma imagem vale por 10 mil palavras e, no afã de veicular uma imagem que poderá ser usada pela concorrência, as empresas vacilam na apuração.

, O Estado de S.Paulo

18 de junho de 2010 | 00h00

Não estamos nem discutindo a velha questão da (im)parcialidade. Jornalismo é entretenimento ou informação? No fundo, talvez seja essa a grande interrogação de Abraço Corporativo. O próprio conceito do filme embute a pergunta. Abraço Corporativo constrói-se no limite entre ficção e documentário. O personagem é um certo Ary Itnem, consultor de RH (Recursos Humanos) que divulga a Confraria Britânica do Abraço Corporativo. Nem Ary nem a "Confraria" são reais. Ambos são ficções criadas por Ricardo Kauffman para colocar a imprensa em discussão.

Ele conta como foi o processo: "Inicialmente, pensava em criar um personagem virtual, mas com o tempo o Ary foi ficando cada vez mais real e terminou personificado por um ator, Leonardo Camilo. Ele participou de novelas nos anos 1980 e trabalha muito como dublador. Fez um dos personagens da série Cavaleiros do Zodíaco e fornece a voz para Nicolas Cage. Havia o risco de que fosse identificado. Comecei o filme nesse sobressalto, mas depois me dei conta de que, se ocorresse, o descobridor da fraude poderia ser incorporado à proposta."

Ary, no filme, é apresentado como personagem real e só depois de uns 20 minutos é desmascarado como ator. Na vida, só um dos entrevistadores contestou a "pauta" - a ideia que ele estava vendendo, e que era justamente o abraço corporativo, inspirado na campanha Free Hugs, criada por Juan Mann. "Era importante que o personagem tivesse uma proposta inofensiva. O abraço não faz mal a ninguém, mas já pensaram se a ideia vendida fosse outra e, mesmo assim, fosse encampada pela mídia? O estrago que poderíamos ter?"

Na verdade, não é só a fragilidade da imprensa - e dos repórteres - que está no centro de Abraço Corporativo. Na medida em que o jornalismo pode se colocar a serviço de pautas irrelevantes, o risco - que Ricardo Kauffman define como "ruído" - pode ser muito maior, a manipulação. Temos, assim, o raro exemplo de um filme-pegadinha. Ricardo Kauffman gosta do formato - "Por princípio, o documentário é o gênero em que o diretor não sabe direito o que vai colher, mas o que me agrada é aquele em que as coisas fogem ao controle, como em Abraço Corporativo." Como a imprensa, vítimas da pegadinha, está reagindo face à exposição da própria fragilidade? "Está sendo simpática, mas só vou poder falar com firmeza após a estreia, e a repercussão do primeiro fim de semana." / L.C.M.

Trailer. Veja trechos de Abraço Corporativo no site

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