"Pegadinha" deixa um ferido e um preso

Um ferido e uma prisão em flagrante por tentativa de homicídio foi o saldo da gravação de uma "pegadinha" que seria exibida neste fim de semana na Rede TV!, no programa Te Vi na TV, apresentado pelo humorista João Kleber. O delegado que registrou a ocorrência e viu o ferimento da vítima acredita que a produção do programa usou bala de borracha em vez de bala de festim na cena. O revólver usado na cena foi emprestado por um policial militar.A gravação aconteceu segunda-feira, por volta das 14 horas, na Praça Duque de Caxias, no centro de Osasco. Próximo ao local, a equipe de produção abordou o segurança Vilmar Santana Teixeira, de 28 anos, propondo-lhe participar da filmagem. Explicada a armação, Vilmar aceitou e assinou uma autorização para veiculação de sua imagem. Seu papel deveria ser o de socorrer uma mulher que sairia desesperada na rua pedindo ajuda para acalmar o marido violento, papel que foi desempenhado por Dirceu Santana Ribeiro, funcionário da Rede TV!. Teixeira garante, entretanto, que não foi informado de que o marido estaria armado."Quando vi a arma, me assustei e tentei fugir, mas ele atirou e senti aquela dor na perna", conta Teixeira. Segundo ele, quando viu o sangue, a equipe procurou afastar os curiosos e o levou para uma farmácia. "Só acabei indo para o hospital porque o farmacêutico se negou a me atender e porque insisti muito, já que a orientação que a equipe recebeu da Rede TV!, via rádio do carro, foi para não me levar ao hospital."No Hospital Antonio Giglio, a equipe médica orientou Teixeira a apresentar denúncia na delegacia. Todos acabaram no 1.º Distrito Policial (DP) de Osasco, onde Ribeiro acabou preso em flagrante por tentativa de homicídio. No boletim de ocorrência consta que "o ferimento apresenta um ´buraco´, o que não seria causado se fossem apenas projéteis de festim, que apenas chamuscam". Teixeira fez exame de corpo de delito no Instituto Médico Legal (IML) e aguarda o laudo técnico oficial sobre o que causou o ferimento. Ele pretende pedir indenização à emissora: "Quero ser indenizado porque sou autônomo e vou ficar uma semana sem trabalhar e também porque é tudo um absurdo que não quero que aconteça com outra pessoa."No DP, André Luiz Barbosa, funcionário da emissora, informou que a arma, que desapareceu depois do incidente, tinha sido emprestada pelo sargento Márcio Alexandre Marconado, da 2.ª Companhia do 22.º Batalhão, que colabora com a produção. O chefe do setor de comunicação social da PM, tenente-coronel Renato Penteado Terrenoud, informou que o incidente será investigado e, se for comprovado o empréstimo, o sargento responderá a processo administrativo e criminal: "Emprestar arma, pessoal ou da corporação, fere as regras internas e a legislação de porte de armas", disse Terrenoud.O superintendente-geral da Rede TV!, Eraldo Abreu, informou que seu advogado pessoal estava tentando libertar seu funcionário (o que ainda não havia ocorrido até às 19h de hoje). "O funcionário não teve intenção de ferir ninguém, a irresponsabilidade foi da produção do programa e iremos apurar e punir os que tomaram a iniciativa de usar uma arma de verdade na filmagem", disse Abreu.Abusos - Embora apenas Ribeiro tenha sido indiciado, Carlos Alberto Ferriani, professor de direito civil da Pontifícia Universidade Católica (PUC), também acredita que quem deveria responder judicialmente, nesses casos, é a produção do programa, a instituição. "Assim, esses abusos seriam mais controlados pelas empresas." Samuel Oliveira Lima, diretor de externas do programa, negou que a arma estivesse carregada com balas de borracha e disse achar um absurdo o indiciamento de Ribeiro por causa de uma brincadeira.Segundo o secretário da Promotoria da Cidadania, Sérgio Turra Sobrane, pouco importa se a arma estava carregada com balas de borracha ou de festim. "Pela lei, é crime que uma arma verdadeira seja usada por pessoa que não tem porte de arma, mesmo estando carregada com balas de festim."

Agencia Estado,

12 de dezembro de 2000 | 21h29

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