Peeling, urgente

Difícil acreditar: Juscelino Kubitschek, governador de Minas, manda cobrir com tinta a óleo as quatro vastas paredes do salão de jantar do Palácio da Liberdade, recém-pintadas por um dos maiores artistas plásticos brasileiros, ninguém menos que Alberto da Veiga Guignard.

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

07 Setembro 2014 | 02h07

Será? Mas como sequer considerar a hipótese, se foi justamente JK quem, alguns anos antes, prefeito de Belo Horizonte, mandou buscar no Rio o grande pintor, plantando-o em definitivo na paisagem de Minas, onde ele não só faria escola como produziria o suprassumo de sua arte?

A fonte é digna de fé: o romancista Autran Dourado, que durante nove anos trabalhou como assessor de JK, primeiro no governo de Minas, depois na presidência da República, leal ao ponto de ter sido, em seguida, premiado com um cartório que lhe garantiu sossego material para edificar sua obra. Verdade que a espantosa história está contada num livro, Gaiola Aberta, que o próprio autor apresenta como sendo de memórias "bastante híbridas: aproximação tradicional, realista, muito comum na memorialística brasileira, e tratamento ficcional meu".

Em seu relato, porém, não parece haver traços de ficção - e sinal disso seriam duas iniciativas de Autran Dourado, nos anos 80, para chamar atenção de autoridades e especialistas, pedindo que se tentasse reencontrar sob camadas de tinta os murais de Guignard, cuja feitura ele pôde acompanhar, pois trabalhava no Palácio da Liberdade. Escreveu à secretária estadual da Cultura, "uma senhora amante das artes", Ângela Gutierrez - "não recebi resposta". Publicou um artigo no Globo - "ninguém me disse nada". No livro, desabafou: "Ficaria cara a restauração? Bem menos do que se gasta na minha querida Minas com tanta besteira".

Antes, contou a história, passada na primeira metade dos anos 50. Relembrou, ainda nuas, aquelas "paredes inteiras", com "pé-direito alto", que "Michelangelo adoraria ter tido". Seria, anteviu Autran, "a obra-prima de Guignard, que morria de satisfação". O pintor, que era seu amigo, lhe disse como ficariam "os grandes painéis interligados: fundo a lápis-cera, com desenhos do mesmo material, mais fortes, de paisagens romanas". Foi, para o escritor, uma aventura inesquecível: "Fui vê-lo pintar mais de uma vez e ficara extasiado".

Finalizado o trabalho, conta Autran Dourado, a primeira-dama, dona Sarah Kubitschek, promove ali um jantar para os secretários e suas mulheres. Pela fresta de uma cortina, ele e Guignard observam a reação os convivas - nada entusiástica, constatam: "Todos eles, mesmo os mais discretos, franziam o nariz; ninguém dizia nada".

O silêncio seria quebrado pelo secretário José Maria Alkmin, amigo de juventude do governador e já àquela altura expoente da mitológica matreirice dos velhos políticos de Minas. Talvez tendo sentido a generalizada falta de entusiasmo dos presentes pelos murais de Guignard, resolveu falar por todos:

- Isto não é arte, mas uma porcaria!

Juscelino, diz Autran, ficou mudo.

Poucos dias mais tarde, Guignard vai ao palácio para lamber a cria - e, ao entrar no salão de jantar, em companhia de Autran, se depara com o espetáculo brutal de pintores recobrindo o seu trabalho. Horrorizado, quer saber quem deu ordem para perpetrar tamanha barbaridade. Alguém entrega:

- Parece que o governador.

Fora de si, o artista, que a rigor nem precisaria do pretexto, precipitou-se, com Autran de impotente anjo da guarda, para o boteco mais próximo e se locupletou de conhaque e pinga.

Não foi o Juscelino, confidenciaria a Autran o artista plástico Heitor Coutinho - discípulo de Guignard e responsável pelos trabalhos de arte que vinham sendo realizados em vários pontos do Palácio da Liberdade -, àquela altura arrasado por haver metido o mestre numa empreitada que culminara em desastre. De quem partiu a ordem, então?

- Da onça.

Seis décadas mais tarde, estão todos mortos, do escritor a Guignard, de Juscelino Kubitschek ao conjugal felídeo, o qual, na toca, mas bem vivo, acompanhará o marido até o fim, das culminâncias da República ao calvário pós-64. Mas lá estão, firmes, as paredes do palácio, à espera de um peeling que talvez nos possa revelar o quanto há de verdade e o quanto de fantasia nas memórias de Autran Dourado.

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